Por audiência, emissoras de TV vão redescobrir São Paulo em 2019

O conceito “rede de televisão” começa a ser tratado nos bastidores com novos olhares. Das cinco maiores, quatro possuem suas sedes em São Paulo, a maior capital e região metropolitana da América Latina, o mercado televisivo mais importante do Brasil, que até então é a vitrine para todo o Brasil. A posição de audiência nesta importante praça é o que mais conta para as grandes emissoras, pois além do seu peso no Painel Nacional de Televisão (PNT), ter um bom desempenho com os paulistas é sinônimo de faturamento. Quando a rede se destaca em outros importantes mercados, mas não tem o mesmo desempenho em São Paulo, na maioria das vezes o programa não tem vida longa. Com exceção da Globo, que concentra sua sede e seus principais estúdios no Rio de Janeiro, as concorrentes Record TV, SBT, Band e RedeTV estão enraizadas na Grande SP.

Sucessora da TV Paulista (Canal 5), a Globo direcionou suas principais operações e produções para sua sede no Rio de Janeiro, após ser vítima de um incêndio de grandes proporções nos estúdios paulistas da Rua das Palmeiras, em 1969. Hoje, poucos programas da rede são produzidos em São Paulo. “Hora Um”, “Jornal Hoje”, “Jornal da Globo”, “Domingão do Faustão”, “Bem Estar”, “Como Será” e “Altas Horas” são os principais transmitidos diretamente dos estúdios do Booklin, inaugurados em 29 de janeiro de 1999 – há quase 20 anos. Através de um moderno sistema de link, a rota de toda a rede pode ser alternada com um único comando, permitindo em casos de emergência que toda programação da Globo possa ser transmitida de São Paulo ou do Rio de Janeiro para todo Brasil. Para tentar suprir parte de uma possível rejeição dos telespectadores locais, a Globo vem cada vez mais apostando no jornalismo do “Bom Dia SP”, “SP1 e SP2” e flashes do “Radar SP”, além de apoiar festas e eventos tradicionais, onde tenta imprimir o status de emissora dos paulistanos, 63 anos após abandonar o nome “TV Paulista” e ter se tornado por muito tempo uma repetidora da rede carioca. Apesar de até hoje ser líder absoluta de audiência em São Paulo e em todo Brasil e ter lançado recentemente seus novos formatos dos telejornais locais, primeiro em São Paulo, para depois adotar em todas as demais praças, a emissora da Família Marinho não está satisfeita com o desempenho de SBT e Record TV, que há semanas estão imprimindo frequentes derrotas em importantes faixas da programação. E é justamente por isso, que já existe internamente um estudo para separar a Globo SP da programação da rede, formando em determinados momentos críticos da audiência, uma programação paralela para a Grande SP. As tradicionais novelas globais, que já tiveram rejeição do público paulista, uma vez que o Rio de Janeiro servia sempre como cenário das tramas, já foram objeto de mudanças importantes no passado, onde São Paulo passou também a ser cenário das telenovelas, com o objetivo de atrair o telespectador local para as histórias exibidas nas faixas das 19h e 21h.

Estúdios de Globo, SBT e Record TV em SP. Globo concentra até hoje sua maior estrutura no Rio de Janeiro e Record já tentou ter seu próprio “Projac”. Mesmo tendo iniciado no Rio (TVS), SBT concentra todas as operações em sua sede paulista.

Outrora, o que era apenas especulação começa a ser desenhado para 2019, principalmente nos bastidores globais. Tentando barrar o “SBT Notícias”, o “Hora Um” deve novamente ser esticado nos próximos meses. Pela manhã, a tentativa é enfraquecer o jornalismo popular do SBT e Record, principalmente das 09h às 10h30. Uma espécie de “Radar SP” com maior duração está em estudos para entrar logo após o “Mais Você”. Enquanto isso, na faixa do início das tardes, os resultados da TV Bahia (Salvador), estão sendo analisados para a implantação de um “SP1” com grande tempo de duração. A atração que hoje conta com 45 minutos seria unida com o “Globo Esporte”, sendo exibida das 11h30 às 13h30. O “Jornal Hoje” poderia ocupar a faixa até 14h30 e o “Vídeo Show”, grande freguês do “Balanço Geral”, pode ter sua exibição cancelada na Grande SP. Na faixa noturna, o “Radar SP” também deve ser ampliado. A emissora, no entanto, não vê com grande preocupação, até o momento, a má fase de “Malhação” e da novela das seis, pois acredita que o desinteresse do telespectador seja passageiro. Com a substituta de “Belíssima” (Vale a pena ver de novo), a emissora acredita que recuperará forças no final da tarde e início da noite já no início de fevereiro e evitará novas derrotas para o “Cidade Alerta”. O “SP2” com maior duração também é uma alternativa, caso os índices não cresçam nos próximos meses.

O SBT é outra emissora que tenta entender o telespectador paulistano. Separar a cabeça de rede da emissora local é a grande preocupação. Afiliadas e filiais costumam se dar bem com suas programações locais, sobretudo com telejornais populares. O “SBT Rio”, que até 1999 vivia às sombras do SBT (rede), conseguiu imprimir sua identidade carioca e brigar pela primeira posição no horário do almoço. Brasília, Porto Alegre, Goiânia, Florianópolis e Curitiba também já conseguiram conquistar público para o jornalismo nesta faixa. Em São Paulo, no entanto, algumas tentativas de jornalismo local na hora do almoço e no final da tarde já foram testadas. Desde o “Aqui Agora”, nada deu certo e os enlatados acabaram se tornando a única investida para suprir as faixas da programação local. O avanço da concorrência, no entanto, deve tirar o SBT da comodidade. Desenhos e novelas mexicanas já não dão o resultado esperado pela emissora em São Paulo. Pelas manhãs, o “Primeiro Impacto”, acabou suprindo em suas 4h30 diárias a falta de identificação com o telespectador da Grande SP. Infelizmente, tal tática prejudica o programa que tem 3h30 transmitidas para todo o Brasil.

Atendendo a demanda por informação local, a Record TV é a que mais se destaca no panorama atual. Com suas versões locais do “Balanço Geral” e “Cidade Alerta”, a emissora possui a possibilidade de imprimir uma identidade regionalizada por mais de seis horas diárias, entre às 12h e 19h45. Se a exploração de uma linha quase que em sua totalidade voltada por pautas policiais divide opiniões, pelo menos em termos de audiência é o que mantém ainda a Record TV SP viva na luta pela audiência contra Globo e SBT. Enquanto o SBT tem seu pilar de sustentação no entretenimento, os paulistas acabam retribuindo a audiência para a Record, sempre que seu jornalismo local está no ar e é por isso que a emissora estuda para os próximos meses antecipar o jornalismo do “Balanço Geral Manhã”, para às 5h, excepcionalmente para a Grande SP. A Globo, por sua vez, diferente do que vem ocorrendo em Salvador e Goiânia, quando leva ao ar seu jornalismo com jeito paulistano acaba ainda se dando melhor que as concorrentes. Já quando o jornalismo é nacional, os números não são tão robustos.

Esse fenômeno de aproximação e retratação local dos fatos é uma tendência que deve fazer 2019 um ano de grandes mudanças nas emissoras de TV e fazer com que todas elas redescubram São Paulo, no jornalismo e no entretenimento e assim provocar o telespectador paulistano para que ele possa seguir na mesma expectativa, ao redescobrir a TV, após a invenção do controle-remoto e o dilema de ficar antenado em uma programação genérica ou em atrações que imprimam o ritmo de uma metrópole como São Paulo, onde a vida não para e o telespectador não dorme; uma peculiaridade que necessita ser respeitada.

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*Escrito pelo jornalista Júlio César Fantin – Bastidores da TV

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015. colunajuliofantin@gmail.com

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