Promiscuidade, infantilidade e religiosidade? Globo, SBT e Record imitam TV paga e segmentam programação

A TV aberta no Brasil está cada vez mais parecida com a TV paga, onde o público predominante é segmentado. Por muitos anos a Rede Globo é líder absoluta em audiência, o que inspirou a Record TV a fazer, na década passada, sua programação totalmente nos moldes da concorrente. O SBT, desde sua fundação, se firmou com uma grade popular e na década de 90, tendo como objetivo a audiência e principalmente o aumento de faturamento, tentou se inspirar em programas da “toda poderosa”. Enquanto a Globo sempre teve sua programação baseada principalmente nas novelas, no jornalismo e no esporte, Record e SBT lutaram sem sucesso para ter seus padrões globais. Os anos passaram, SBT e Record voltaram a brigar igualmente pela vice-liderança e a Globo continua intacta em sua posição.

A emissora da Família Marinho, ao mesmo tempo que ostenta o topo da preferência, também sempre foi acusada de monopólio, de influenciar o telespectador com um jornalismo maquiado e abusar das quebras de tabu e do “politicamente correto” em suas novelas. Mesmo que muitas tramas reflitam a realidade, os folhetins na maioria das vezes tem temática adulta (sexo, sensualidade, drogas, violência). Essa fórmula, embora criticada por parte dos brasileiros, foi até pouco tempo a mais copiada.

Em 2012, no entanto, a emissora mais mexicana do Brasil, ousou em voltar a investir em teledramaturgia própria. Com o sucesso do remake de “Carrossel”, novela que voltou a ser reprisada na última segunda (06), o SBT passou a segmentar seu público. “Chiquititas”, “Cúmplices de um resgate”, “Carinha de Anjo” e o mais novo fenômeno “As Aventuras de Poliana”, vieram para consagrar a fórmula que também vem colhendo bons frutos com a série “Z4”. A emissora é hoje a que mais investe no público infantil com atrações como o “Bom Dia e Cia” (que por ironia termina todos os dias as 15h), o “Mundo Disney” e é claro, exibições garantidas de seriados clássicos como “Chaves”. Outrora, mesmo sem renovação de contrato com grandes produtoras, a TV que já alcançou grandes resultados com séries como “Um Maluco no Pedaço”, “Eu, a patroa e as crianças” e “As Visões da Raven”, parece ter esquecido de um público fiel e que até hoje está carente . A emissora que já chegou a ter metade da grade com novelas e seriados mexicanos e enlatados americanos, também mudou radicalmente nos últimos anos, investindo mais de 7h diárias de jornalismo. Por outro lado, mesmo tendo programas de auditório consagrados, a atual grade da emissora de Silvio Santos nada lembra os anos 90, quando era a TV das “colegas de trabalho”. O próprio SBT deixou no baú um dos seus grandes trunfos da sua era de “líder absoluto do segundo lugar”, onde se popularizou o “jornalismo-cão”, com o sucesso do “Aqui Agora”. Hoje a TV da via Anhanguera se divulga como o canal da família brasileira, resta saber se essa fórmula não será no futuro um “tiro no próprio pé”, pois crianças também crescem. Nem todos os adultos continuam crianças para sempre.

Com liderança de audiência e faturamento, Globo completou 53 anos em abril; SBT faz 37 anos no dia 19 de agosto com sua melhor audiência nesta década mas tentando ser mais lucrativo; e Record TV promete se reinventar mais uma vez em seus 65 anos a serem comemorados em setembro.

Se uma emissora tem a “imagem de promiscua e manipuladora” e a outra vende a ideia de uma programação família, mesmo que para isso tenha que “infantilizar” grande parte da grade, o que restou para a Record TV, desde que errou o “caminho da liderança” e descobriu que o SBT é uma ameaça concreta, mesmo quando Silvio Santos resolve sabotar a grade da própria emissora, com investimentos muito inferiores do que a TV da Barra Funda. Após diversos fracassos na teledramaturgia, a emissora de Edir Macedo resolveu segmentar sua programação. As tramas bíblicas passaram a ser prioridade na Record TV, após o sucesso de “Os Dez Mandamentos”, reprisada até poucos dias atrás. Apesar de um público cativo, principalmente fiéis da Igreja Universal e suas co-irmãs, a fórmula acabou perdendo fôlego. “Apocalipse” ascendeu a luz vermelha. Desde que estreou a nova superprodução “Jesus”, a grande aposta para recuperar a vice-liderança do horário, a trama até agora não mostrou a que veio nos principais mercados televisivos do país. Com licenças poéticas ou ideologias que contrariam principalmente católicos, as novelas da emissora passaram a ter rejeição por parte dos telespectadores, o que não é uma estratégia positiva para qualquer emissora que se apresente como “comercial”. Ao mesmo tempo, a grade da Record TV ficou prisioneira ao jornalismo sensacionalista. Com mais de 6h diárias, sem a ajuda do “Balanço Geral” e do “Cidade Alerta”, não dá para imaginar o que seria hoje a emissora que já tentou ser a nova líder e até agora não encontrou a própria identidade, às vésperas de seus 65 anos de história.

 

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015. colunajuliofantin@gmail.com

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