“Que tiro foi esse Record”? Os erros que fazem a emissora viver uma fase de “TV de Terceira” e “sombra” do SBT

Qual o principal erro da Record TV nos últimos 12 meses? Firmar parceria com a Simba Content (programadora formada por Record, Rede TV! e SBT), saíndo da TV paga na Grande SP por cerca de 90 dias; apostar numa programação “suícida”, repetindo a grande falha histórica do SBT, quando afastou seu público e afiliadas com sua grade instável; ou a falta de estratégia, com sua direção completamente perdida? Diversos fatores podem ser enumerados como os responsáveis pelo pior momento da Record TV, desde que declarou ao mundo que o SBT não fazia mais parte do seu alvo e que estava “a caminho da liderança”. Embora negado pela sua assessoria de imprensa, a Record TV tenta ressurgir das cinzas, cometendo os mesmos erros que a tornaram dependentes de poucos programas, os quais são fundamentais para alavancar toda sua grade, cada dia mais semelhante do SBT, repleta de reprises e tentativas frustradas de ser o “mais do mesmo”.

Passados quase 11 meses do apagão analógico na Grande SP, com um 2017 e início de 2018 para ser apagado das escrituras, a emissora tenta consertar o autoboicote promovido pela sua direção que acabou entregando a vice-liderança de graça novamente ao SBT. Com a tão esperada “Apocalipse”, a emissora do bispo Edir Macedo iniciou um caminho muito distante da liderança, chegando a dar sinais do fim, assim como no “livro sagrado”. Num ano de grave crise econômica no país, a investida da Simba Content para pressionar as operadoras de TV por assinatura a pagarem pelo sinal digital das três emissoras, até que ambas as partes costurassem um acordo comercial, gerou grave prejuízo de audiência, principalmente para a Record TV. Mesmo sem grandes investimentos, o SBT acabou sendo o maior benefiário da aliança. Diferentemente de Edir Macedo, Silvio Santos nunca escondeu de ninguém que suas empresas sempre financiaram os custos do SBT, que nasceu graças ao “Baú da Felicidade”. Houve o tempo que a “Tele Sena” foi a grande responsável por investimentos milionários em filmes, séries e novos formatos. Hoje, a Jequiti é a grande “galinha dos ovos de ouro”. Outrora, a Record foi adquirida graças à Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), numa manobra para ocultar o verdadeiro interessado, em 1989, quando a emissora tinha Silvio Santos como sócio. O fundador e líder da IURD e também dono da Record TV, o bispo Macedo, seguiu os mesmos caminhos do “homem do baú”. Enquanto um vendia sonhos, através de cupons, outro pregava a palavra de Deus e com a doação de seus fiéis criou um império, até hoje o grande mantenedor da sua emissora de TV, injetando centenas de milhões de reais todos os anos, em troca da “venda” de suas madrugadas.

Silvio Santos e Edir Macedo se tornaram sócios da Simba em 2015, mesmo com suas emissoras travando guerra por audiência. Em tempos diferentes, Abravanel e Macedo buscaram vencer a hegemonia global.

Silvio foi “dispensado” da Globo e teve que se virar para continuar vendendo seus produtos, principal alvo dos seus programas. “Se tornou dono de TV, porque os donos de TV fecharam as portas” para o eterno camelô. Macedo ingressou na comunicação para propagar sua igreja. Em 1995, a Globo exibiu a polêmica minissérie “Decadência” (vista por ele como uma cŕítica pessoal), além de uma reportagem em que sugeria que Macedo ensinava seus pastores à enriquecerem com a fé do povo. Desde então, o bispo declarou guerra à Rede Globo. Sonhou em tomar o posto da “platinada”, investiu em artistas globais e criou programas à “imagem e semelhança” da concorrente. Tentou ser melhor que a concorrência, mas perdeu o rumo em querer ser igual. Por quase 15 anos, chegou a atingir momentos de liderança, assim como o SBT atingia nos anos 90 e início dos anos 2000, quando lançou a campanha “Na nossa frente só você”; mas esqueceu do principal: criar a própria identidade da Record TV. Se a Jequiti, Baú e Tele Sena continuam sendo até hoje grandes responsáveis pela existência do SBT e a IURD, mesmo que não de forma declarada, continua indispensável para a Record, em tempos em que a economia nacional e o poder aquisitivo do brasileiro passam por recessão, o “limpo dinheiro” vindo da Simba e a diminuição dos custos de investimentos é uma tendência nas duas emissoras que duelem pela vice-liderança, hoje, diferentemente de anos atrás, com os pés mais cravados no chão. Assim como dinheiro não sai das “portas da esperança”, também não “cairá do céu” para sempre.

Prestes a estrear um novo programa jornalístico em suas manhãs, seguindo os mesmos moldes e na mesma faixa do “Primeiro Impacto” (SBT), a Record tenta tomar o público de Dudu Camargo e Marcão do Povo, que vivem um excelente momento na faixa das 06h as 08h30, mesmo com poucos investimentos do SBT em infraestrutura. O mesmo jornal chegou a ser testado no ano passado por Silvio Santos na mesma faixa do “Balanço Geral” (12h as 15h), derrubando a audiência da grade do SBT, sendo cancelado em poucos dias. O “Legendários” se destacava aos sábados e foi jogado pela Record às sextas, onde perdeu público e acabou sendo extinto. Mesmo sendo a grande arma da Record, o “Cidade Alerta” foi encurtado para a precoce reprise de “Os Dez Mandamentos” e a exibição de uma novela inedita (Belaventura), que não foi bem avaliada pelo seu público. A emissora estreou um novo jornal local e viu seus índices em horário nobre desabarem. Cansada de perder, a Record mudou a reprise da novela bíblica e esticou o “Cidade Alerta”. Depois de tantas mudanças, a grade da emissora se encaminha para impressionantes 10h diárias exploradas por programas semelhantes, apenas com títulos diferentes, os filhos do épico “Aqui Agora”, o jornal do SBT que misturava entretenimento, com muito sangue, hoje chamados de “show de realidade”. Neste sábado (17), estreou o “Balanço Geral Especial”, com foco em fofocas reprisadas do quadro “A Hora da Venenosa”, com apresentação da esposa de um dos bispos da Universal. Foram quatro anos para que a Record descobrisse que o “Domingo Show”, de Geraldo Luís, dava muita audiência, mas não se pagava, devido a falta de anunciantes e o custo elevado de produção. Do mesmo jeito que o apresentador e sua equipe não parecem ter engolido a redução do programa em duas horas para a exibição de reprises do recém-criado “Show de Humor”, uma versão do “Quem não viu vai ver” (SBT), o telespectador mais atento, vê nas entrelinhas o “aviso prévio” do grande responsável pelo bom desempenho da grade dominical da emissora, o pilar de sustentação do “Hora do Faro” e o “Domingo Espetacular”.

Em guerra acentuada pela audiência, Record TV e SBT vivem momento de harmonia, com parceria financeira.

Parafraseando a filósofa contemporrânea Jojô Toddynho: “Que tiro foi esse” Record? Nesse caso, no entanto, o “tiro” não é uma “bola dentro” (expressão positiva e surpreendente) e sim uma “bala perdida”, que foi disparada para o alto e atingiu o próprio atirador. Mesmo que a audiência seja satisfatória em muitos momentos, a emissora que se diz “aberta para o novo” e “reinventar é a nossa marca”, parece que jogou as mãos para o alto e se entregou definitivamente à sociedade com Silvio Santos: “reprisar é a nossa arma”!

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015. colunajuliofantin@gmail.com

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