Mesmo envolta em críticas ao enredo, “Segundo Sol” não deixou de brilhar

O capítulo 155 vem chegando, e com ele o desfecho para os personagens cheios de camadas, a história assumidamente folhetinesca e um roteiro argucioso que fizeram de Segundo Sol uma novela para poucos paladares.

E, assim sendo, teve quem bebericou e, logo no início, torceu o nariz e colocou-se na frente da TV simplesmente para atafulhar os erros – ou melhor, equívocos – da trama (semelhante ao que ocorreu com a atabalhoada Salve Jorge). Mas também teve aqueles que ousaram a tomar mais um ou dois goles desse refresco (Ah, os refrescos! Finalmente os frescos) e, enfim, conseguiram sentir o sabor da fruta exótica da qual João Emanuel Carneiro e sua equipe de roteiristas extraiu o sumo servido no horário das nove. Paladares à parte, é inegável que houve um grande barulho feito pela trama. O positivo e o negativo.

O negativo, a que me refiro, não foi sobre a expectativa pelo retorno do autor (a mesma que, em 2015, fez parte do público ser “tombado” ao se deparar com a pesada A Regra do Jogo). Foi um barulho de bastidores – primeiro envolvendo escalações de atores (sim, estou falando das críticas que fizeram à escolha de Giovanna Antonelli como protagonista), o pouco número de atores negros escalados, inicialmente, para a trama (falha que foi prontamente corrigido com o decorrer da trama e comentado pelo autor, em entrevista recente à Revista Veja) e, principalmente, alguns desacertos de cronologia que, podemos fazer vista grossa facilmente, já que em novelas é comum esse tipo de escorregadela.

A “mocinha” não tão grandiosa quanto outras de João Emanuel Carneiro ganhou boas nuances com a atuação extremamente dedicada de Giovanna Antonelli que não sucumbiu  às duras críticas por sua escalação . Foto: TV Globo

Já o barulho positivo, o que enterneceu parte dos que curtiram a trama, deu ritmo e cor à trama, e é tão gostoso quanto o swing do Baianidade Nagô que embalou a trama. Vamos a eles.

Começando pelo time de roteiristas que João Emanuel Carneiro trouxe para o front de batalha, como por exemplo, Lilian e Eliane Garcia, nomes discretos, mas que com toda certeza você já viu nas aberturas de grandes tramas da Rede Globo. Pesquisadoras e colaboradoras, trabalharam com Antônio Calmon (com destaque para a ótima Cara e Coroa e a ensolarada Corpo Dourado), Elisabeth Jhin (entre outras, na aclamada Espelho da Vida e a lírica Escrito nas Estrelas) e, finalmente, com Gilberto Braga e Alcides Nogueira na requintada Força de um Desejo. Somam-se à dupla, Fábio Mendes, que já atuou com João Emanuel Carneiro em A Regra do Jogo, e Márcia Prattes, conhecida na casa e que já trabalhou com inúmeros autores, principalmente com Aguinaldo Silva. Um time com bojo que indiscutivelmente contribuiu para as arrebatadoras tramas paralelas que marcaram Segundo Sol. Aliás, núcleos secundários estes que, em muitos momentos, tomaram um pouco do protagonismo da trama.

João Emanuel Carneiro na festa de lançamento de Segundo Sol. Foto: Artur Meninea/Gshow

Outro ponto que podemos associar ao barulho positivo, tem a ver com os meandros pelos quais a trama se delineou. É bem verdade que a história veio calçada nos chinelos do bom e velho dramalhão, assumidamente novela, sem pretensão de se distanciar do formato – e isso foi um grande ponto a favor de Segundo Sol. Mas, ainda que revestida de clichê, João Emanuel Carneiro e equipe conduziram a trama por estradas cheias de emoção, usando os ganchos (ah, e como tiveram ganchos), as reviravoltas e os congelamentos, como forma de fazer quem assiste se sentir em uma monta-russa, cheia de loopings. E não foram só nas segundas-feiras (dias em que a audiência dispara) que o roteiro explodiu bombas, aos sábados e quartas (geralmente quando a trama se vê com menos público) não foram poupadas de grandes acontecimentos da história.

Algumas arrobas, no twitter, comentaram algo como “ah, mas a novela anda em círculos”. E precisamos concordar que, sim, teve uma certa órbita eterna em certa fase da trama – mais precisamente no período eleitoral. Mas, até aí, a equipe acertou. Não desgastou suas rodas cantando pneu em asfalto ruim, não explodiu suas boas bombas em um momento em que as atenções estavam voltadas para a mais importante decisão da sociedade brasileira: as eleições para presidenciais. E vem daí, mais um grande feito da novela: o de se manter neutra em meio à polarização política que o Brasil viveu, mesmo tratando de forma incisiva temas fortes, como misoginia, violência à mulher, prostituição, homossexualidade, trafico, entre outros. Um grande feito que brindou àqueles que só queriam o velho “pão e circo” após ser bombardeado com as notícias do cotidiano nos telejornais.

Laureta e Karola: as duas principais engrenagens que fizeram a novela se movimentar. Foto: TV Globo

O sol das nove vai se pondo com a sensação de dever cumprido – principalmente na visão da alta cúpula, visto que os 33 pontos de média (acumulados até essa última segunda-feira, 05/11) são três acima da média estabelecida pela casa (30 pontos é o sugerido para às 21h). O regozijar vai além desse consolidado. Se observamos as tabelas de medição da audiência da trama, é nítido ver que não houve uma perda significativa de público entre os capítulos. A audiência se manteve fiel, resultado de uma direção correta e um roteiro arguto, mas, acima de tudo de um elenco afiado.

E é sobre esse elenco que a nossa próxima coluna sobre o desfecho de Segundo Sol, afinal, um desfile de personagens icônicos, não poderia ser resumido a poucas linhas.  E, assim como João Emanuel Carneiro, eu gosto de ganchos, por isso…

Vejo vocês no próximo post sobre Segundo Sol.

Eli Nunes

Publicitário, Roteirista e Apaixonado por teledramaturgia. Viciado em TV, café e twitter. Participou do projeto "Masterclass" do autor de novelas da Rede Globo Aguinaldo Silva para formação de novos roteiristas. Twitter: @olivrodoeli

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