“Showrnalismo”? “Cidade Alerta” transforma dramas reais em capítulos de novela e tática faz programa virar vitrine de suposta “Fake News”

Vale tudo pela audiência na TV? Até que ponto o jornalismo deve ser utilizado para transformar ocorrências policiais de grande apelo popular em casos ou enredos de uma trama, onde a cada dia um novo e longo capítulo é exibido em horário nobre? Para chamar atenção da “novela mexicana”, esses casos aparentam ter um roteiro pré-escrito, onde o mocinho e o vilão estão claramente definidos. Se a tática para muitos é o mais puro sensacionalismo, pelo menos para o telespectador do “Cidade Alerta”, apresentado por Luiz Bacci, na Record TV, parece ter surtido efeito.

Comandante Hamilton disputa espaço aéreo com urubus para mostrar em tempo real a retirada de corpo da cova, na tarde desta quinta-feira (29), em SP. Apresentador Luiz Bacci narra trabalho da Guarda Municipal e chama atenção da sua audiência para a possibilidade do corpo ser da jovem Amanda, desaparecida há alguns dias e que pode ter sido executada pelo crime organizado. “O Cidade Alerta sempre sai na frente porque o povo está com a Record”, alfineta Bacci ao vangloriar cobertura em tempo real. (Atualizado: Embora toda a expectativa do apresentador em encontrar o corpo de Amanda, horas após o fim do programa, a confirmação de que os corpos encontrados não tinham qualquer ligação com a jovem desaparecida. O fato foi desmentido nesta sexta (30), pelo “Brasil Urgente”, concorrente direto do programa da Record).

Com uma concorrência fraca, principalmente contra a má fase das reprises das “Novelas da Tarde” (SBT) e das tramas globais da atualidade (Belíssima, Malhação e Espelho da Vida), o “Cidade Alerta” vem alcançando altos índices nas últimas semanas, atingindo a liderança por diversos momentos na Grande SP, Salvador e outras importantes praças. O programa da Record TV tem cerca de três horas diárias de duração e passou a investir forte em coberturas intensas de casos como os sumiços de “Amanda” e “Tainá”. Esses assuntos também são explorados pelas concorrentes em seus telejornais, no entanto, sem o mesmo alarde.

“Caso Tainá”: Apesar de ampla cobertura e levantar possibilidade de sequestro, o que é descartado pela polícia, Record nega Fake News no Cidade Alerta.

No “Caso Tainá”, a ampla exploração do fato fez com que o programa virasse vitrine de uma suposta “Fake News”. A ocorrência que inicialmente foi realizada na delegacia como desaparecimento ganhou outro rumo no programa, que priorizou os depoimentos diários do pai de uma criança de oito meses que teria sido levada pela ex-esposa Tainá, de 18 anos, e seu novo namorado sem conhecimento do pai e da família, passando a tratar o “Caso Tainá” como um suposto sequestro. Dias depois, com a divulgação de vídeos de Tainá e seu atual namorado, com posterior entrevista telefônica ao “Cidade Alerta” e videoconferência com o “Primeiro Impacto” (SBT), a garota revela que sofria ameaças do ex-marido, que ela e a filha estão bem e que não voltará para o ex-marido, pois está apaixonada. As investigações continuam e a polícia agora trata o caso como eventual subtração de incapaz. Confirmada a versão de que Tainá não está desaparecida, que não houve sequestro (uma vez que não existiu qualquer pedido de resgate e que supostamente ela está ao lado do novo namorado por vontade própria), existe uma grande probabilidade de que o telespectador tenha sido induzido ao erro, ao ser informado com elementos baseados em um ex-marido traído de que o sumiço seria um sequestro, o que criou amplo apelo e comoção, sem a correta apuração jornalística e investigação policial. Ao invés de tratar a ocorrência com responsabilidade, parte da mídia utilizou depoimentos de um marido trocado, de uma mãe ausente, de uma ex-mulher do cantor suspeito de ter “sumido” com Tainá e a criança. Até um cantor que já fez dupla com o suspeito foi ouvido para desqualificá-lo, ligando um caso a outro sem qualquer nexo, em que o mesmo teria tentado enganar diversos artistas. Culpado ou não das acusações, a tática utilizada por programas como o “Cidade Alerta”, deixa evidente a transformação do suspeito em vilão e de um caso real, que envolve a vida e a intimidade de pessoas, em um circo da teledramaturgia, disfarçado de cobertura jornalística. “Estamos tratando de um homem perigoso que foi condenado por estelionato e que não cumpriu a pena convertida em serviços comunitários e que está em fuga com a jovem Tainá e um bebê”, afirma o apresentador Luiz Bacci, no início do “Cidade Alerta” desta quinta-feira (29), chamando atenção do telespectador para novas informações exclusivas do caso, em mais um emocionante capítulo da ‘trama mexicana’ da vida real.

“Caso Amanda”: Desaparecimento de jovem de 24 anos, mãe de quatro filhos, é explorado há semanas pelo Cidade Alerta, com direito à cobertura em tempo real das buscas pelo corpo.

A assessoria de comunicação da Record TV, em resposta aos questionamentos do Bastidores da TV, referentes a tática utilizada pelo “Cidade Alerta” na abordagem de casos como o de “Amanda” e “Tainá”, informa que “a Record TV é reconhecida pela seriedade e credibilidade do seu Jornalismo. A emissora acompanha investigações policiais seguindo rigorosos critérios de apuração e também ouvindo todos os lados envolvidos”.

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*Escrito pelo jornalista Júlio César Fantin – Bastidores da TV

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015. colunajuliofantin@gmail.com

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