Sul: Afiliadas de Globo e Record monopolizam concessões e extinguem programação local de algumas geradoras – Medida sufoca concorrência e deixa telespectador sem opção

Ao jogar um boomerang, o jogador deve sempre aguardar o seu retorno. Tomando essa mecânica como base, podemos traçar a desleal realidade do mercado televisivo em Santa Catarina, reflexo de muitos outros estados brasileiros. A então Rede SC (hoje RIC Record), que acusava a RBS TV (hoje NSC TV), de monopólio no mercado catarinense, aparece atualmente dividindo o mesmo status. Por mais forte que seja a programação de uma geradora estadual, a cultura de cada região, jamais pode ser desconsiderada. Em SC, Joinville se identifica mais com Curitiba do que com Florianópolis, enquanto Lages, Chapecó e Joaçaba seguem um tradicionalismo amplamente gaúcho.

Com concessões de geradoras em todo o Estado, a NSC TV (Afiliada da Globo) e a RIC TV (Afiliada da Record TV), dominam o mercado, sufocando emissoras concorrentes, deixando o telespectador sem variedade, informações e identidade local. A NSC TV conta com concessões em Florianópolis, Criciúma, Blumenau, Joinville, Joaçaba e Chapecó. Já a parceria RIC TV e Record tem concessões em Florianópolis (2 emissoras: Record e Record News), Itajaí, Joinville, Blumenau, Xanxerê e Chapecó. Enquanto isso, o SBT SC só possui uma concessão em Lages (com estúdio de produção em Florianópolis), a qual transmite sua programação unificada para todo o Estado. A Band também compartilha do mesmo panorama. Através da TV Catarina, em Florianópolis, possui uma única programação estadualizada. Já a RedeTV!, não possui geradoras em SC, tendo apenas um canal na Capital, o qual transmite o sinal via satélite.

Afiliadas de Globo e Record TV extinguem programações locais no interior de SC. NSC TV alegou que a medida foi adotada para dar maior mobilidade para as duas equipes de reportagem e ampliar a visibilidade da região Centro-oeste. RIC TV informou que demissões e extinção de programação na região meio-oeste se deve à crise econômica do país.

Enquanto a RIC Record luta há anos para legalizar uma nova concessão em Criciúma e a NSC TV, quando ainda RBS SC, mantinha um estúdio e sinal diferenciado em São José (Grande Florianópolis), novas concessões foram travadas pelo Ministério das Comunicações. Em agosto, no entanto, a programação da RIC Record Xanxerê foi unificada à RIC Record Chapecó, cidades distantes apenas 45km, que possuem duas concessões sob o comando de um único grupo coligado.

Já a NSC TV, ainda no ano passado, também extinguiu a programação da NSC TV Centro-Oeste, linkando a programação totalmente com Florianópolis, utilizando a geradora de Joaçaba, apenas para veicular propaganda regional. O caso da extinta TV Catarinense (com concessão em Joaçaba, no meio-oeste), chama grande atenção, até mesmo por ser a única concessão de TV para aquela imensa região. Quando a RBS adquiriu a ex-afiliada da Band, que tinha forte identidade local e regional, a afiliada da Globo prometeu manter a programação local. Com o passar dos meses, o estúdio principal foi transferido para Lages, na Serra catarinense. Agora, a emissora possui apenas equipes de reportagem, deixou de ter os blocos locais ao meio-dia e recebe o sinal direto da matriz (Florianópolis), ao invés de no mínimo, ter o sinal de Chapecó, região com a mesma identidade cultural e de colonização do que as regiões de Joaçaba e Lages.

A crítica situação de pluralidade televisiva catarinense se repete em diversas regiões do país. Em alguns Estados, grandes redes de TV não possuem afiliadas, nem mesmo concessões de canais repetidores. Quem perde com o monopólio é o mercado de comunicação local e as regiões que tiveram usurpado o desenvolvimento, devido os interesses comerciais de grupos privados na concentração de concessões públicas. Se isso é legalmente questionável ou pode ser tolerado pelos fiscalizadores, não parece ser justo e moral. Qual o motivo de um grande grupo adquirir concessões de TV, em cidades com uma única concessão disponível e não utilizá-las à favor da comunidade local e regional?

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015. colunajuliofantin@gmail.com

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