Tramas paralelas concisas ajudaram “Segundo Sol” a manter o fôlego

Entrega. Se pudéssemos resumir o elenco de Segundo Sol em uma única palavra, essa seria a escolhida.

Me lembro, como se fosse ontem, o burburinho que se alastrou sobre a escalação. As razões pelas quais escolheram os protagonistas, a vilã, os coadjuvantes, entra e sai, troca, rumores, boatos, dúvidas.  A resposta aos que indagaram: por que novamente esse rosto? A resposta, hoje, na ponta da língua, é essa: entrega.

Preparação do elenco, antes da estreia da novela. Foto: Julio Miranda

Não escrevo isso para desmerecer outros grandes atores que teriam tutano para fazer tão bonito quanto os escalados, mas é que, há tempos, não se vê um elenco com tanta entrega. Afiadíssimos que eram, não deixara sobrar tempo nem espaço para as fofoquinhas de bastidores, bem comum em todas as tramas. Sabemos que nem tudo são flores em uma produção dessa magnitude, mas, mesmo com a crítica tecesse duros comentários às escalações ou a enredo, o elenco seguiu trabalhando, sem se contagiar, sem retrucar, e esbanjou simpatia e alegria nos bastidores. Isso jogou muito a favor da trama.

Foto: TV Globo

Pudermos ver, ainda, um elenco secundário tão forte e necessário à trama. Valorizados e com história em constante movimento. Tramas paralelas que não estavam lá para preencher tempo de tela – elas caminhavam e oxigenavam os capítulos. Demonstração de respeito dos autores aos atores, que, mesmo em personagens mínimos, como a benzedeira Januária ( Zeca de Abreu), ou a garota de programa Katiandrea (Camila Lucciola), esbanjaram o que? Entrega. Prova disso, mesmo com poucas aparições, sempre chamaram a atenção do público.

Foto: TV Globo

Mas a salva de palmas maior vai para o trio Kelzy Ecard, Claudia di Moura e Nercival Rubens: três grandes acertos. Figuras desconhecidos da grande mídia, que por conta da ENTREGA, novamente ela, conquistaram a simpatia do público, mesmo dentro de núcleos povoados de rostos conhecidos e populares. Nercival, por exemplo, como Galdino, estava no front de batalha constante com Karola e Laureta (Deborah Secco e Adriana Esteves, ambas em constante erupção) e, ainda assim, conseguiu captar olhares para sua atuação, não se deixou engolir pelas colegas de cena e, por fim, abriu caminho para outros atores fora do eixo Rio-SP.

Assim como o intérprete de Galdino, Kelzy e Cláudia, colaboraram intensamente para o texto sair perfeito, a emoção ser certeira e a novela andar.

Reprodução/GloboPlay

No núcleo jovem, Chay Suede dispensa comentários. A maturação pela qual passou desde Império foi celebrada aqui. O sotaque que não se perdeu durante a trama, os trejeitos bem incorporados e o texto bem dito fez de Ícaro um dos melhores personagens masculinos da trama. Somam-se ao time, Luisa Arraes (caprichando a cada nova nuance que a sua conturbada Manu ganhava a cada avançar de fase) e Danilo Mesquita, que segurou muito bem o “barril dobrado” que foi contracenar com uma Deborah Secco visceral e uma Letícia Colin irrepreensível. Aliás, é de Letícia que precisamos falar agora. Dona de uma Rosa que cresceu, murchou e desabrochou novamente, nesta reta final, a atriz que já tinha nos deixado hipnotizados como a Princesa Leopodina de Novo Mundo, garantiu seu lugar no hall dos “melhores da sua geração” ao encontrar o tom perfeito para a garota de programa que nos fez amar e odiá-la com o andar da trama.

Reprodução/GloboPlay

Cabe ainda aplaudir as interpretações de Fabrico Boliveira, como o rancoroso Roberval (ora amado, ora odiado), Caco Ciocler, como o inseguro Edgar, Giovanna Lancelotti, que fez a odiosa Rochelle e ainda: de Maria Luiza Mendonça (em seu melhor personagem em anos), Odilon Wagner (como o corrupto Severo, um gancho entre a novela e a vida real) e, por fim, Agenor que, nas mãos dos genial Roberto Bonfim, conseguiu se tornou uma  peça necessário no grande tabuleiro de xadrez que foi Segundo Sol.

Foto: Reprodução

E já que estamos falando de tabuleiro de xadrez, avancemos o jogo para falar das peças principais desse tabuleiro: começando por Giovanna Antonelli e Emilio Dantas. O casal de protagonistas passou por uma verdadeira procissão de amor e ódio durante a trama. Mas ambos não deixaram se balar pelas críticas aos rumos que seus personagens tomaram: tiraram a capa e espada da ENTREGA do armário e foram à luta. Beto Falcão já está imortalizado, tanto pelo mito do personagem que renasceu sem ter morrido, quanto pela composição perfeita – voz, corpo, swing e sotaque – que deu ao protagonista da trama. Já Giovanna Antonelli, lutou contra as críticas pela sua escalação para a baiana Luzia e conseguiu emocionar como a mãe em busca de reunir a família, tudo fruto de muito trabalho e pouca atenção aos burburinhos. Entrega.

Foto: TV Globo

Quem nadou em oceano mais calmo foi o intérprete de Remy, Vladimir Brichta. Voltou ao horário nobre depois de encantar o público das 19h como Gui Santiago e fez do mau-caráter vilão da trama um personagem interessante a quem assistiu à Segundo Sol pelas boas tiradas, fruto de um texto certeiro na mão de um ator que conhece bem a palavrinha mágica chamada… ENTREGA!

Mas…. E Karola e Laureta? E Adriana Esteves e Deborah Secco? Cadê elas no jogo do bicho? Ou melhor: no xadrez de Segundo Sol?

Ah! Isso é assunto para ao terceiro e último capítulo dessa coluna especial sobre Segundo Sol. Nela, eu vou contar o porquê dessas delas serem as duas peças mais importantes do tabuleiro de Segundo Sol.

Eli Nunes

Publicitário, Roteirista e Apaixonado por teledramaturgia. Viciado em TV, café e twitter. Participou do projeto "Masterclass" do autor de novelas da Rede Globo Aguinaldo Silva para formação de novos roteiristas. Twitter: @olivrodoeli

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