Análise: Alternância da liderança entre Globo, SBT e Record faz bem para a TV brasileira e provoca mudanças nos bastidores

O bom desempenho do “Cidade Alerta” e do “Balanço Geral”, jornalísticos da Record TV, nas últimas semanas, está tirando o sono da Globo em dois importantes horários da programação e deu sobrevida à já acomodada nova terceira colocada em audiência, após perder o posto de vice-líder isolada para o SBT, que mesmo sem grandes investimentos conseguiu retomar o posto no ranking que havia sido perdido pela fase agressiva da TV de Edir Macedo ao sonhado caminho da liderança. Com a exploração de pautas policiais de grande comoção, algo que lembra o lendário “Aqui Agora” (SBT), a Record TV vem ameaçando o primeiro lugar global, em importantes praças como São Paulo e Salvador. Do outro lado, SBT com seu “Primeiro Impacto”, “SBT Notícias”, “The Noite” e alguns programas da linha de shows também vem deixando a Globo em segunda posição.

Essa alternância de posições de audiência entre Globo, SBT e Record faz bem para a TV brasileira. Com o tempo fará com que os diretores revejam suas programações e caíam na real que o controle remoto já foi inventado faz anos. Desde que se tornou a toda poderosa, a Globo já teve por inúmeras vezes sua liderança ameaçada com o bom desempenho de algumas atrações de suas concorrentes. Outrora, nenhuma investida de SBT, Manchete e Record foi capaz até hoje de tomar o primeiro lugar absoluto da emissora da Família Marinho. A audiência da Globo depende muito da aceitação de suas novelas (há fases de fartura e outras de rejeição) e da programação de suas concorrentes. Essa gangorra faz a Globo oscilar muito em audiência, ao mesmo tempo que Record e SBT não conseguem fidelizar esse público da poderosa por muito tempo. Programas que exploram as desgraças (os intitulados jornalísticos da vida real), sempre tiveram fases de explosão na telinha. O “Brasil Urgente” já ocupou a vice que hoje o “Cidade Alerta” consolidou e ampliou para momentos de liderança. O “Aqui Agora”, o precursor dos programas de gênero também já tirou o sono da Globo. Do auge aos índices mais modestos, a fórmula tem sua validade limitada.

O fato, no entanto, mostra a tendência da TV brasileira, ao dedicar grande parte da programação para o jornalismo factual. Provocada pela boa fase do jornalismo das madrugadas do SBT (que ousou com a maratona ao vivo), a Globo criou e mais tarde ampliou o “Hora Um”. Com a ampliação do “Primeiro Impacto” até às 10h30, hoje já alcançando momentos de liderança contra “Mais Você”” e “Bem-Estar”, uma posição da grade matinal da Globo já começa a ser desenhada. A afiliada da Bahia servirá de teste para futuras mudanças em toda rede, até mesmo porque naquela praça, “Encontro” e “Bahia Meio Dia” acabaram se tornando fregueses da Record TV Itapõa e em alguns momentos da TV Aratu (SBT). Dentro da Globo, existe uma discreta movimentação para que alguns produtos do entretenimento tenham seus tempos reduzidos e que programas como “Praça 1” e “Praça 2”, assim como o “Jornal Hoje”, tenham mais tempo na grade. No SBT, da mesma forma, como a coluna do Bastidores da TV já antecipou existe euforia pelos bons números do “Primeiro Impacto” (jornal com custo baixo e bom retorno financeiro), ao mesmo tempo que a audiência do “Balanço Geral” e “Cidade Alerta”, na concorrente, causa preocupação para alta cúpula do canal de Silvio Santos. Para 2019, dois formatos inspirados no “Aqui Agora” e “O Povo na TV”, podem ganhar forma entre a faixa das 13h e 19h45. Já na Record, um antigo projeto pode ser tirado do papel nos próximos meses, com diminuição do horário cedido à Igreja Universal e ampliação do jornalismo.

Alternância no ranking de liderança da TV brasileira sempre existiu, em horários e fases distintas. Apesar de investimentos expressivos das concorrentes, Globo nunca perdeu seu trono de líder absoluta, nem mesmo em 2003, quando Grupo Globo decretou falência.

Silvio Santos manteve suas loterias disfarçadas por décadas com o objetivo de impulsionar os investimentos do SBT contra a Globo. A Tele Sena foi quem patrocinou aquele pacote milionário de gigantes mundiais de filmes e séries por todo esse tempo. Silvio tentou criar até três faixas inéditas de novelas nacionais, contratou grandes nomes da Globo (esses que voltaram atrás do compromisso assinado), tentou investir até no futebol com a Copa Mercosul, Copa do Brasil e Paulista. Depois de tantas investidas, Silvio se convenceu que injetar dinheiro para derrubar a Globo seria desperdício. O mesmo já declarou isso em público. Aí veio a Record com o empurrão pessoal do bispo Edir Macedo, com a mesma ambição que Silvio teve, o utópico caminho da liderança. Foi neste momento que o já experiente camelô resolveu recuar e decidiu assistir tudo de camarote. A Record gastou uma fortuna com ajuda divina e da mesma forma que o SBT, não conseguiu derrubar a soberania global. Essa é a triste realidade que desencoraja até os dias de hoje qualquer empresário de comunicação a declarar guerra ao além.

Quem estuda a história da nossa TV sabe que ela é feita de fases e a liderança ameaçada da Globo faz parte destas movimentações esporádicas. Tudo até hoje, no entanto, foi em vão. A Manchete trilhou os mesmos caminhos mas não teve força para retornar aos trilhos antes do trem cair no penhasco. O sucesso estrondoso de “Pantanal” não foi suficiente para que a emissora fosse à falência anos depois. A Globo decretou falência em 2003, mas em milagrosa reviravolta transformou suas empresas em vitrine de faturamento, principalmente devido a desigualdade na distribuição de verba publicitária governamental. Edir Macedo demorou uma decada para descobrir o que Silvio Santos sentiu na pele desde que inaugurou o SBT. A sociedade formada em conjunto com a RedeTV para que as operadoras de TV por assinatura pagassem pelo sinal digital de Record, SBT e RedeTV, no auge da crise econômica, colocou Macedo ao lado de Silvio Santos e após tanto dinheiro desperdiçado, a ambição dá passagem para os pés no chão. A luta agora será nos bastidores, para que em novos tempos políticos a maior fatia da gigantesca e indispensável verba publicitária do governo não seja mais direcionada à Globo, apenas por critérios de audiência. Com uma divisão mais igualitária, há quem acredite na sobrevivência e na reinauguração da TV brasileira. Do contrário, de nada adiantará comemorar momentos de liderança contra a Globo, se as contas continuarem no vermelho ou no limite do negativo.

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*Escrito pelo jornalista Júlio César Fantin – Bastidores da TV

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015. colunajuliofantin@gmail.com

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