Análise: “Gato por lebre” – A farsa da TV Digital no Brasil!

A TV digital no Brasil começou a ser implantada em 2006. 11 anos depois, a maior cidade e região metropolitana do país teve, nesta semana, o apagão definitivo da TV analógica. São Paulo já é 100% digital, mesmo não tendo parcela de sua população preparada para receber em suas casas, a digitalização tão aguardada, em suas TVs, devido a falta de conversores digitais, antenas externas ou de televisores modernos. O futuro que começou pela cidade de Rio Verde (GO), chegou no maior mercado consumidor do país.
A qualidade de imagem e som já é realidade na Grande SP, mas sem os recursos tecnológicos e a possibilidade de multiprogramação. Para baratear os custos e atender os interesses de grandes conglomerados das comunicações, o governo acatou, logo em sua implantação, algumas limitações ao sistema. Desde 2007, o telespectador foi iludido que a TV Digital mudaria sua vida para melhor. No entanto, o brasileiro se depara hoje com uma farsa: a TV Digital veio pela metade. Compramos “gato por lebre”!

Adeus chuviscos! Este é o único benefício que o telespectador brasileiro recebeu ao trocar a TV analógica pela TV Digital. Além da qualidade da imagem e som, o sistema digital brasileiro se mostra ultrapassado e limitado pelas normas criadas unicamente para proteger operadoras de TV paga e emissoras de TV de grande porte. Em 2009, o governo federal proibiu a Multiprogramação na TV Digital. Em outras palavras, alegando que a medida visa impedir que um canal de TV aberta venda seus canais secundários para Igrejas e Televendas, proibiu o telespectador de ter a experiência de receber uma maior variedade de conteúdo gratuito, em alta definição, diretamente em seu televisor, sem necessitar pagar caro por um serviço de TV fechada, via cabo ou satélite.
A Multiprogramação está liberada apenas para emissoras publicas como a TV Brasil, TV Câmara, TV Senado e TV Justiça. A TV Cultura tem a autorização limitada para a Grande SP, onde já utiliza seus canais secundários para oferecer programação alternativa. O 2.1 transmite o sinal da Cultura HD, já o 2.2 da TV Univesp e o 2.3 da Multicultura. Ainda resta utilizar o 2.4, caso tenha interesse. Cada canal possui a possibilidade de carregar outros três secundários em alta definição, sem prejudicar a qualidade dos sinais. A multiprogramação só não faz parte dos novos canais comerciais de alta definição. Cinema sim, mas sem a variedade da TV paga. Ou seja, qualidade, mas sem quantidade. Para evitar a divisão de verbas entre novos canais e a competição com a TV paga, emissoras como a Globo abriram mão da Multiprogramação. Utilizando alguns canais Globosat como exemplo, o telespectador da Globo SP, além de assistir a Globo HD no canal 5.1, se fosse do interesse da emissora poderia ver no 5.2 a Globo News, no 5.3 o Viva e no 5.4 o SporTV. O telespectador do SBT, além do HD no 4.1, poderia ter acesso a canais alternativos. No 4.2 poderia assistir um SBT News, no 4.3 um SBT Retrô e no 4.4 um SBT Kids. Tudo de graça, direto da sua TV!
Outro problema do falho sistema digital brasileiro é a interatividade. Os set up box, que fazem a conversão do sinal analógico para o digital, não trazem a interatividade, uma das habilidades dessa evolução tecnológica. O modelo da TV Digital nem de longe passa pela informatização da mídia mais popular do Brasil. Simplesmente, a interatividade que deveria estar nos set-top box, ou seja, o conversor que está sendo distribuído pelo governo às famílias carentes, especialmente, por meio dos programas sociais, como as do Cadastro Único do programa Bolsa Família, é uma interatividade bastante tímida.
Uma parte bem pequena da banda de transmissão é usada para transportar dados que poderão ser acessados pelo seu usuário no set-top box. Ou seja, é quase como aparecer o nome da música no seu rádio, aquela informação é local, e não tem canal de retorno. Assim, para pagar a conta de luz via TV só se você acoplar a internet no seu monitor de TV, porque uma melhor imagem não trará com ela a customização da informação, que é o principal bônus da internet e das redes sociais: você é o seu próprio programador.
No futuro, a TV digital brasileira pode permitir um certo grau de acesso a serviços de governo eletrônico, como o agendamento de consultas pelo SUS (Sistema Único de Saúde), mas nem de longe se tornará uma internet, com aquele cardápio fantástico de informação que vem via novas mídias, como os filmes à la cart da internet. Ou seja, 11 anos depois de lançada a pedra fundamental da TV digital no Brasil, a TV de alta qualidade ainda não chegou, e a internet via TV, com tudo que se tem direito, esta nunca chegará, não neste modelo.
Quantos anos será necessário ainda para implantar a TV Digital em todos os municípios brasileiros é uma incógnita. Dependerá também do interesse das operadoras de telefonia na ampliação da rede 4G. Se considerarmos que alguns municípios ainda não possuem sinais 3G, na telefonia móvel, bem possível que o cronograma de apagão nacional do sinal analógico seja ainda prorrogado por pelo menos uma década. O setor de telecomunicações foi o que “bancou” a migração de tecnologias na TV aberta brasileira. Resta saber se viabilizará o 4G em todo país, ocupando assim a frequência hoje utilizada pela TV analógica, o que viabilizaria a TV Digital em todo território nacional.
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