Análise: Televisão brasileira constrói “mitos políticos” e depois tenta enterrá-los

Há oito anos, parte da TV brasileira dava voz a um deputado federal do Rio de Janeiro que se tornaria um pop star político graças às suas posições ideológicas e declarações polêmicas tão bombásticas que conseguiam elevar os índices de audiência de programas como o Superpop (RedeTV!) e CQC (extinto programa da Band). Como convidado ou entrevistado por inúmeras vezes por atrações como a de Luciana Gimenez (bom nome para o Ministério das Comunicações), Jair Bolsonaro foi se tornando conhecido pelo Brasil afora, numa época onde a TV ainda tinha maior penetração e poder influenciador do que a era das redes sociais. Parcela da imprensa acabou “sem querer querendo” transformando um político em “mito presidenciável”, com ampla probabilidade de ser a partir de 2019, o novo presidente do Brasil, segundo as pesquisas eleitorais. O candidato do PSL alcançou mais de 46% dos votos, cerca de 50 milhões de eleitores, na disputa à Presidência da República e agora duela o posto político mais importante do país com Fernando Haddad (PT), apadrinhado de Lula, outro político que a mídia acabou transformando em ídolo político e que após inúmeras tentativas se tornou o presidente do Brasil.

O presidenciável Jair Bolsonaro se tornou amplamente conhecido por suas inúmeras participações polêmicas em programa da Rede TV!

Lula e o PT chegaram ao poder, onde permaneceram por 13 anos, até o impeachment de Dilma Rousseff. O Brasil estava mergulhado numa crise econômica e política, com a “Operação Lava Jato” e o país foi novamente dividido entre direita e esquerda. O ex-presidente Lula foi condenado a 12 anos de prisão e Dilma foi expulsa do cargo. O seu vice assumiu o posto de presidente e o mesmo eleitor que votou em Dilma em 2014, não aceitou a decisão constitucional, chamando Temer de golpista. A onda “Lula Lá” que em 2002 levou o sindicalista ao Palácio do Planalto, na esperança de um Brasil melhor, hoje vê seu líder na cadeia. Há quem discorde de sua prisão, independente de condenação judicial e consideram que “nunca antes na história deste país”, um homem íntegro como Lula foi tão perseguido. Lula poderia ter sido eleito presidente ainda em 1989, mas parte da imprensa abraçou Fernando Collor na época. Collor acabou sofrendo o impeachment em 1992.

Silvio Santos, dono e apresentador do SBT, em 1989 quase foi também eleito presidente do Brasil, por um partido nanico, mas contra grande parte da opinião pública (imprensa), acabou tendo sua chapa cassada às vésperas das eleições. Independente de ideologias políticas, a mídia brasileira sempre teve suas cores partidárias, mesmo que muitos veículos de imprensa insistam em vender a falsa imagem de isonomia. Nos Estados Unidos, a legislação é outra e emissoras de TV não hesitam em defender suas posições ideológicas. Há aquelas que pregam a neutralidade, outras que defendem posições de direita e outras de esquerda. Aqui no Brasil, veículos online e impressos, mesmo que defensores do código de ética jornalística, possuem suas linhas editoriais bem definidas. No rádio e na TV, por se tratarem de concessões públicas, é vetada a posição unipartidária.

Silvio, Lula e Collor disputaram eleições em 1989. Bolsonaro é candidato nas eleições deste ano.

Bolsonaro se tornou representante da direita e dos mais conservadores com posições políticas que afrontam homossexuais, negros e mulheres, além do seu discurso forte contra a criminalidade, sendo defensor do porte de armas para o cidadão. O candidato ficou justamente conhecido por suas polêmicas declarações dadas na TV, mas hoje se apresenta como o representante da família brasileira, abertamente declarado “antipetista”. Haddad, que já foi prefeito de São Paulo, se tornou candidato oficial do PT há poucos dias, após a candidatura de Lula ser negada pelo TSE. O candidato petista, que hoje conta com o apoio de esquerdistas e lideranças de outras frentes que condenam o autoritarismo e ideologias conservadoras e religiosas de Bolsonaro, defende a minoria, os programas sociais e a volta da “era Lula”, além de acreditar que bandidos de pequena pericosidade devem ser retirados da cadeia e ressocializados.

Numa democracia, as “fake news” devem ser combatidas e o voto de cada cidadão deve ser respeitado. Por outro lado, o brasileiro é um povo carente de líderes e nossa história sempre foi moldada por uma simples fórmula científica: “Fenótipo = Genótipo + Meio Ambiente”. Essa regra explica como um ser pode ser moldado na sociedade em que está inserido. A pessoa é mais do que a sua genética, seu comportamento e seus habitats completam um indivíduo. Logo, um formador de opinião, desde os tempos da Grécia antiga, pode mudar radicalmente a vida de toda uma nação, para o bem ou para o mal, tudo depende da interpretação de cada ouvinte.

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015. colunajuliofantin@gmail.com

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