“Hora Um” completa três anos e Globo volta a ser ameaçada por maratona jornalística implantada pelo SBT

Cansada de perder a liderança diariamente para as reprises do extinto “Jornal do SBT”, que era gravado no fim de noite e exibido durante a madrugada, no dia 01 de dezembro de 2014, a Rede Globo decidiu agir e em tempo recorde, desde a ideia até a implantação, extinguiu da grade diária o “Telecurso 2000” e o “Globo Rural”, para a estreia do “Hora Um da Notícia” (Hora 1), com Monalisa Perrone, em rede nacional, ao vivo, direto dos estúdios da capital paulista. Na estreia, o jornal atingiu 3,7 pontos, contra 2,8 do SBT, elevando a audiência global em 85% na Grande SP.

Nesses três anos no ar, o “Hora Um” ampliou seu público e até meses atrás seguia intacto na liderança isolada, mesmo com a ousada investida de Silvio Santos, em setembro de 2016, quando estreava o “SBT Notícias” ao vivo, durante toda a madrugada, sete dias por semana. Apesar de mudar os apresentadores de hora em hora e ser transmitido sempre ao vivo, a maratona jornalística do SBT demorou para investir em quadros próprios e diminuir o excesso de reprises de reportagem. A emissora aposta no público rotativo de grandes metrópoles como a capital paulista, onde grande parcela da população acorda no meio da madrugada e outra parcela que até então era ignorada, trabalha nesta faixa. Uma cidade que não para, também tem necessidade de informação. Não é porque a maior parte dos brasileiros dorme que a notícia deixa de acontecer. Nesse sentido, o “SBT Notícias” sai na frente do concorrente que foi criado para ser a primeira hora da notícia.

Seja pelas importantes entradas ao vivo do repórter Marcelo Bittencourt , em links pela Grande SP, trazendo a notícia do momento ou até a participação especial de praças como Brasília, Rio de Janeiro e Santa Catarina, com links ao vivo, em coberturas de interesse nacional, seja pelos inúmeros furos jornalísticos nacionais e internacionais, em tão pouco tempo no ar. Há um ano, por exemplo, o avião com a equipe da Chapecoense caiu na Colômbia e o jornal do SBT foi o primeiro a dar a notícia. A Globo só entraria no ar com um plantão do “Hora Um”, por volta das 04h30 da madrugada, quase uma hora depois do concorrente. Quem acordar para trabalhar quer ficar antenado das informações das últimas horas e poucos ligam a TV para assistir um filme que já começou. Em outubro desse ano, sentindo novamente a ameaça da concorrência e a rejeição do público às desgastadas reprises de filmes na madrugada , a Globo novamente mudou sua grade, passando a exibir reprises do “Globo Repórter”, a partir das 04h15. A “Seleção” de reportagens da Globo, no entanto, não foi suficiente para barrar as constantes vitórias do “SBT Notícias”, principalmente a partir das 04h, quando na Grande SP, o telejornal do SBT consegue atingir médias entorno de 3 a 4 pontos, já tendo alcançado picos de 5 pontos.

A audiência da madrugada, vale ressaltar, é bastante oscilante. Estima-se que entre 00h e 06h, cerca de 2,5 milhões de domicílios assistam TV nas 15 praças pesquisadas pela Kantar Ibope. O share e o desempenho de Globo e SBT na faixa dependem de diversos fatores. Depende do dia da semana, das condições do clima e também o desempenho das atrações que antecedem o madrugadão da TV brasileira. Um fato curioso, no entanto, é que nos últimos três meses, o bom desempenho da edição das 04h do “SBT Notícias”, apresentado por João Fernandes, impulsionou a edição das 05h, apresentada por Cassius Zeilmann, que em muitos dias consegue alcançar a liderança contra o primeiro bloco do “Hora Um” e até fechar a média do horário com uma leve diferença do jornal global, que não economiza em links ao vivo de todo o Brasil e até dos seus correspondentes internacionais. Apesar de apenas alfinetar a liderança do primeiro telejornal diário da Globo, o fato não havia ainda sido registrado, o que mostra que o potencial do jornal das madrugadas do SBT, que por conta do confronto com o “Hora Um”, até pouco tempo atrás, dava a impressão de que abria mão dos links ao vivo e melhor aproveitamento de assuntos factuais, por simples medo da estrutura da concorrente. Aliás, os blocos iniciais do “SBT Notícias”, apresentados por Karyn Bravo e Analice Nicolau, também alcançam a liderança em diversos momentos, principalmente quando há algum assunto factual de impacto ou quando a atração anterior atingiu a liderança. Na Grande SP, a média do “Hora Um” oscila entre 5 e 6 pontos. A média deste ano até o momento é de 5,72 pontos. Já o “SBT Notícias”, exibido de domingo a domingo, durante várias horas, acumula média anual de 3,0 pontos. A audiência oscila entre 2,0 e 5,0 pontos.

“Hora Um” completa três anos no ar.

De acordo com dados da Kantar Ibope para a Grande SP, das 05h as 06h, desta sexta-feira (01), no aniversário do “Hora Um”, a Globo atingiu 5,9 pontos, enquanto o “SBT Notícias” chegou a 4,1 pontos, com audiência mínima de 3,0 pontos. Na terça-feira (29), o “SBT Notícias” assumiu a liderança por volta das 04h e só perdeu o primeiro lugar por volta das 05h20. Vale ressaltar que antes da implantação do jornalismo ao vivo nas madrugadas do SBT, a vantagem da Globo era muito maior do que a registrada nos últimos meses. E não é apenas quando se herda uma boa audiência que o “SBT Notícias” se destaca. No dia 20 de novembro, por exemplo, o jornal pegou com 4,8 pontos e a 1h13 da madrugada, elevou para 5,4 pontos, com um link ao vivo de uma ocorrência grave no Centro de SP. No feriado de 15 de novembro, o “SBT Notícias” atingiu a liderança por 73 minutos consecutivos e conseguiu vencer o “Hora Um”, das 05h as 05h35, obtendo 3,7 pontos contra 3,4 da Globo.

“SBT Notícias” é destaque nas madrugadas.

Se as derrotas para o SBT continuarem na faixa das 04h, há grande probabilidade da Globo retirar as reprises do “Globo Repórter” e antecipar o início do “Hora Um”. Por meses o SBT insistiu em exibir dentro do “SBT Notícias”, longas reportagens antigas do “Conexão Repórter”. Evidentemente que determinados assuntos podem despertar o interesse do telespectador das madrugadas, no entanto, na maioria das vezes, uma longa reportagem em plena madrugada acaba cansando quem está ligado na TV. Até poucos anos atrás, as emissoras saiam do ar no fim de noite. A própria medição de audiência até hoje considera a “média- dia”, até as 00h, por considerar a faixa com maior apelo comercial. As madrugadas sempre foram ocupadas por sessões de filmes, reprises e séries, na Globo e no SBT, enquanto que Band, Record e RedeTV! costumam comercializar o horário para igrejas e outras “produções independentes”. Os anos passaram e o hábito do brasileiro mudou. Quem trabalha em grandes centros acorda cada vez mais cedo, quem passa a madrugada trabalhando tem no jornalismo ao vivo, um passa tempo e uma aproximação maior com a realidade. Num país onde muitos brasileiros sofrem de insônia, a TV feita também para o público “coruja”, é uma tendência a ser observada. Assim como o rádio é o companheiro inseparável de muitas pessoas, devido a aproximação do locutor com o ouvinte, a TV falando com o telespectador, enquanto muitos dormem, trazendo informação atualizada, antes do galo cantar, faz do jornalismo ao vivo nas madrugadas, o mais novo companheiro do brasileiro. Se com pouco investimento e estrutura limitada, o “SBT Notícias” já consegue uma audiência de respeito, imagina o desempenho de um jornal com maior prestação de serviços, links e atualidade?

Talvez o “Hora Um” de hoje, mesmo que muito bem estruturado, não tenha mais o mesmo impacto de três anos atrás, justamente porque o SBT acordou e passou a antecipar a maior parte dos assuntos que horas depois serão manchete em todas as emissoras, dando ênfase em ocorrências de destaque que acabam de acontecer. Logo, a “Hora Um da Notícia”, tem o mesmo peso que o “Primeiro Impacto”, quando exibe as mesmas reportagens que o telespectador já assistiu na maratona da madrugada.

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Júlio César Fantin

Trabalhou em empresas de comunicação como SBT SC, Band SC e Regional FM. Criou o site Portal G e o portal Ouvintes. É colunista de TV desde 2012. Atua no BastidoresDaTV, desde janeiro de 2015.

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