Neurologista analisa diagnóstico clínico do cantor Fiuk
No dia 25 de agosto de 2026, o cantor e ator Fiuk, de 35 anos, revelou suspeitar de estar no espectro autista. O artista contou que iniciou o processo de investigação diagnóstica, mas não o concluiu por medo de ser julgado por pessoas próximas. “Descobri, de uns anos para cá, que, possivelmente, eu sou do espectro autista. Ainda não tive coragem de fazer o diagnóstico. Eu comecei, mas não terminei. Porque eu tinha medo de as pessoas me olharem diferente”, afirmou Fiuk em vídeo publicado em suas redes sociais.
Segundo o Dr. Matheus Trilico, neurologista referência em TEA e TDAH em adultos, o relato de Fiuk traz à tona uma questão frequente em consultório: o medo do diagnóstico como barreira terapêutica. O médico observa que adultos que desconfiam estar no espectro autista interrompem o processo por receio do impacto nas relações familiares, profissionais e sociais. O medo de ser visto de forma diferente é real e legítimo, mas torna-se um problema quando impede o acesso a informações e suporte que melhoram a qualidade de vida.
O neurologista afirma também que é necessário estabelecer uma distinção clara entre sentir-se diferente e ser autista. Não se encaixar em grupos sociais ou ter uma personalidade considerada estranha não configura, por si só, um diagnóstico de autismo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que exige critérios clínicos específicos. De acordo com o Dr. Matheus, esses critérios incluem déficits persistentes na comunicação e interação social recíproca, padrões restritos e repetitivos de comportamento e prejuízo clinicamente significativo em múltiplos contextos ao longo da vida, conforme estabelecido pelo DSM-5-TR (Associação Psiquiátrica Americana, 2022).
Para o Dr.Trilico, o momento em que uma figura pública fala sobre autismo é uma janela de oportunidade. É o momento de informar corretamente milhares de adultos que podem estar na mesma situação de Fiuk, com responsabilidade e sem banalizar a condição. O reconhecimento de características que se assemelham ao espectro não substitui a avaliação clínica especializada.
Camuflagem social: quando performar uma personalidade se torna estratégia de sobrevivência
Fiuk associou sua trajetória como ator à necessidade de esconder características autísticas desde a infância. “Eu acho que eu aprendi a atuar porque eu tinha que me comportar normalmente desde criança”, declarou o artista. Na literatura científica, esse fenômeno é chamado de camuflagem social. Trata-se de estratégias para esconder, mascarar ou modificar comportamentos autísticos para atender às demandas sociais.
Segundo o Dr. Trilico, a camuflagem é um fator de risco para problemas de saúde mental e está associada a piores índices de qualidade de vida. Pesquisas em andamento na Universidade de São Paulo (USP) investigam se as taxas de camuflagem são ainda mais elevadas no Brasil do que no Reino Unido devido às particularidades das normas sociais brasileiras. O neurologista explica ainda que aprender a atuar para ser aceito gera um custo funcional alto. A camuflagem social consome energia mental, gera exaustão e predispõe a quadros de ansiedade e depressão.
“O relato de Fiuk ilustra a sensação de passar a vida inteira interpretando um papel para se encaixar. O alívio de entender por que isso aconteceu é real, mas não deve ser confundido com a resolução dos prejuízos causados ao longo dos anos. A pessoa que camufla geralmente não consegue comunicar suas necessidades reais, o que gera colapsos internos invisíveis para quem está ao redor”, destaca o neurologista.
O estigma como barreira diagnóstica: por que adultos não concluem a investigação
O Dr. Trilico observa que o Brasil enfrenta um cenário de subdiagnóstico severo em adultos. Um estudo publicado na Revista de Psicologia e Saúde em Debate (2026) analisou que a resistência ao diagnóstico é motivada por medo, estigma social e desconhecimento. Pesquisas de Paula e colaboradores (2020) na revista Autism confirmam que o estigma social é um desafio compartilhado em toda a América Latina, com relevância particular no Brasil.
Dados do Censo Demográfico de 2022, divulgados pelo IBGE em maio de 2025, mostram que a prevalência de TEA em crianças de 5 a 9 anos é de 2,6%, mas cai drasticamente em faixas etárias mais elevadas. Segundo o Dr. Trilico, essa queda ocorre porque adultos nunca foram identificados. Um estudo de Santos e colaboradores (2026) mostrou que a prevalência cai para 0,3% em adultos com 30 anos ou mais no Brasil.
Para o neurologista, o Brasil vive o fenômeno da geração perdida, semelhante ao descrito pelo King’s College London em agosto de 2025. Naquele estudo, revelou-se que entre 89% e 97% dos adultos autistas com 40 anos ou mais permanecem sem diagnóstico no Reino Unido. O neurologista afirma que a maioria dos adultos que atende passou décadas sem entender suas dificuldades específicas e, ao chegarem ao diagnóstico, enfrentam um misto de alívio e luto pelo tempo perdido.
“Cansei de parecer o que eu não sou”: o custo da camuflagem ao longo da vida
A frase de Fiuk sobre o cansaço de tentar se encaixar sintetiza o esgotamento que a camuflagem produz. Segundo o Dr. Matheus, não é uma escolha estética, mas o resultado de anos de esforço cognitivo para sustentar um comportamento que não corresponde ao funcionamento natural do cérebro. Quando esse esforço cessa, a pessoa experimenta alívio, mas as relações construídas sob a camuflagem podem sofrer abalos.
O neurologista destaca que a busca por compreensão da própria neurodivergência é um ato de responsabilidade interpessoal. Sem o diagnóstico, a pessoa não comunica suas necessidades de forma clara, o que sobrecarrega o ecossistema relacional, incluindo cônjuges e colegas de trabalho. O entendimento clínico permite que o entorno se reorganize de forma mais saudável.
Por que a investigação diagnóstica não é substituída por autodiagnóstico
O Dr. Trilico reforça que suspeita e diagnóstico são coisas diferentes. A suspeita é um ponto de partida, mas o diagnóstico exige entrevista clínica detalhada, história do desenvolvimento e verificação de prejuízo funcional. O neurologista alerta contra o movimento de romantização do autismo nas redes sociais, que trata características como super poderes ou dons.
“Essa narrativa de romantização invisibiliza o sofrimento real de adultos que enfrentam dificuldades em manter empregos e autonomia. Características como o foco intenso vêm acompanhadas de exaustão por hipervigilância e alterações sensoriais que interferem no cotidiano. O diagnóstico é uma ferramenta clínica para estratégias de melhora, não um rótulo identitário”, enfatiza Dr. Matheus.
Estudos de Sukiennik e colaboradores (2022) e Do Nascimento Marques e colaboradores (2025) destacam a importância de profissionais especializados e instrumentos validados para a população brasileira. Para o médico, o próximo passo para quem se identifica com o relato de Fiuk é buscar uma avaliação estruturada. O processo deve incluir a exclusão de outras condições que podem mimetizar o espectro.
“O diagnóstico não muda quem a pessoa é, mas oferece uma lente para entender por que certas coisas sempre foram difíceis. A partir dessa compreensão, é possível construir estratégias que respeitem o funcionamento real do indivíduo, sem a necessidade de máscaras exaustivas”, conclui Dr. Matheus Trilico.
Sobre o Neurologista:
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818
Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA); Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR); Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR; Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).
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Nota: Este release foi elaborado para fins informativos e de imprensa. As referências científicas citadas estão disponíveis nos periódicos Autism, Frontiers in Neurology e Autism Research, além de dados oficiais do IBGE (2025) e King’s College London (2025).
