Psicanalista Liara Theodoro fala sobre violência doméstica, alienação parental e disputas judiciais
Quem é Liara Theodoro?
Sou psicóloga e psicanalista, com atuação clínica e também na área da Psicologia Jurídica. Ao longo da minha trajetória, venho me dedicando ao atendimento de crianças, adolescentes e adultos, além de atuar em contextos que envolvem conflitos familiares, disputas judiciais, avaliação psicológica e escuta de situações emocionalmente delicadas. Meu trabalho busca unir técnica, sensibilidade e responsabilidade ética, sempre considerando a singularidade de cada sujeito e a complexidade das relações humanas.
Para começar, o que a psicanálise pode nos ensinar sobre o comportamento humano nas relações familiares?
A psicanálise nos ensina que os vínculos familiares são muito mais profundos do que aquilo que aparece de forma consciente. Muitas vezes, repetimos padrões, expectativas, dores e formas de amar que foram construídas desde muito cedo. As relações familiares não são feitas apenas do que se diz, mas também do que se cala, do que se transmite emocionalmente e do lugar que cada um ocupa dentro daquela dinâmica. A psicanálise ajuda justamente a compreender que os conflitos familiares não surgem “do nada”: eles geralmente carregam histórias, marcas emocionais e modos de funcionamento que atravessam gerações.
De que forma experiências da infância influenciam a maneira como lidamos com conflitos na vida adulta?
A infância é o tempo em que começamos a formar nossa maneira de perceber o amor, a segurança, o abandono, o afeto e até o conflito. A forma como fomos escutados, acolhidos, validados ou negligenciados interfere diretamente na maneira como reagimos às frustrações e nos relacionamos na vida adulta. Pessoas que cresceram em ambientes muito instáveis, por exemplo, podem desenvolver dificuldade de confiar, medo intenso de rejeição ou até uma tendência a tolerar relações adoecidas por acreditarem, inconscientemente, que o amor sempre vem acompanhado de sofrimento. A infância não determina tudo, mas ela deixa marcas importantes.
Nos últimos anos, os casos de violência doméstica têm ganhado maior visibilidade. Do ponto de vista psicanalítico, quais são os impactos emocionais dessa violência para a vítima?
Os impactos emocionais da violência doméstica são profundos e muitas vezes duradouros. A vítima pode desenvolver medo constante, ansiedade, culpa, vergonha, sensação de impotência, perda da autoestima e dificuldade de confiar novamente em si mesma e nos outros. Do ponto de vista psicanalítico, a violência não fere apenas o corpo ou a rotina: ela atinge a subjetividade da pessoa, enfraquece sua percepção da realidade e compromete seu senso de valor e autonomia. Em muitos casos, a vítima passa a duvidar da própria percepção, minimiza o que viveu e se vê emocionalmente aprisionada mesmo quando deseja sair daquela relação.
Muitas vítimas permanecem por anos em relacionamentos abusivos. Por que isso acontece?
Essa é uma pergunta importante e precisa ser respondida sem julgamentos. Permanecer em uma relação abusiva não é sinal de fraqueza. Existem muitos fatores envolvidos: dependência emocional, medo, manipulação psicológica, isolamento, dependência financeira, esperança de mudança, culpa e até a repetição inconsciente de modelos de vínculo aprendidos ao longo da vida. Em muitos relacionamentos abusivos, o sofrimento não é constante o tempo todo; ele se mistura com promessas, pedidos de desculpa e momentos de aparente afeto, o que confunde a vítima e dificulta o rompimento. Além disso, muitas pessoas já chegam à relação com fragilidades emocionais que acabam sendo exploradas pelo agressor.
O processo terapêutico pode ajudar vítimas a reconstruírem sua autonomia emocional após uma relação abusiva? Como?
Sim, e esse processo costuma ser fundamental. A terapia oferece um espaço de escuta, elaboração e reconstrução subjetiva. É um lugar em que a vítima pode nomear o que viveu, compreender os mecanismos de abuso, resgatar sua autoestima e fortalecer sua autonomia emocional. Aos poucos, ela deixa de se enxergar apenas a partir da dor ou da culpa e começa a reconstruir seu valor, seus limites e sua capacidade de escolha. A terapia não apaga o trauma, mas ajuda a dar sentido ao vivido e a impedir que aquela experiência continue definindo toda a vida psíquica da pessoa.
Em casos de separação conflituosa, fala-se muito em alienação parental. O que exatamente caracteriza esse fenômeno?
A alienação parental diz respeito a situações em que a criança ou o adolescente é envolvido de forma inadequada no conflito entre os adultos, sendo exposto a interferências que prejudicam ou dificultam a relação com um dos genitores. Isso pode ocorrer por meio de desqualificação constante, impedimento de contato, manipulação emocional, indução de medo ou colocação da criança em posição de rejeitar o outro genitor sem que ela tenha condições emocionais de elaborar isso de forma própria. É um tema delicado, que exige muita cautela técnica, porque nem toda rejeição a um dos pais significa alienação; às vezes, a recusa da criança pode estar ligada a vivências reais e dolorosas.
Quais são as consequências psicológicas da alienação parental para a criança?
As consequências podem ser bastante sérias. A criança pode vivenciar confusão emocional, culpa, ansiedade, tristeza, lealdade dividida, dificuldade de confiar nos próprios sentimentos e prejuízos na construção da identidade. Quando a criança é colocada no centro da guerra entre os adultos, ela deixa de ocupar o lugar de filha para assumir, muitas vezes, funções emocionais que não lhe cabem. Isso pode comprometer seu desenvolvimento psíquico, sua segurança emocional e sua forma de se relacionar no futuro.
Existe possibilidade de reversão desses danos psicológicos? Como o acompanhamento terapêutico pode ajudar?
Em muitos casos, sim, principalmente quando há intervenção adequada e precoce. O acompanhamento terapêutico ajuda a criança a organizar emocionalmente aquilo que viveu, a diferenciar o que sente do que foi induzido a sentir e a reconstruir um espaço interno mais seguro. O trabalho também pode auxiliar os adultos a compreenderem o impacto de suas atitudes sobre o psiquismo infantil. Quanto antes a criança for protegida da continuidade desse conflito, maiores são as chances de elaboração e recuperação emocional.
Nos últimos anos, tem aumentado o número de disputas judiciais envolvendo guarda de crianças. Do ponto de vista da psicanálise, como esses conflitos podem afetar o desenvolvimento emocional dos filhos?
Quando a criança cresce em meio a disputas intensas, ela pode viver um estado constante de tensão, insegurança e instabilidade. Muitas vezes, passa a sentir que precisa escolher lados, agradar um para não ferir o outro ou esconder o que sente para sobreviver emocionalmente àquele ambiente. Isso pode gerar ansiedade, alterações comportamentais, dificuldades escolares, sentimentos de culpa e até sintomas físicos. A criança precisa de previsibilidade, proteção e segurança emocional para se desenvolver. Quando o conflito parental ocupa todo o espaço, isso pode abalar profundamente sua sensação de estabilidade.
Qual seria a melhor forma de proteger o bem-estar emocional das crianças em meio a esses conflitos?
A melhor forma é impedir que a criança seja transformada em instrumento da disputa. Ela não deve ser usada como mensageira, testemunha, prova de amor ou objeto de vingança entre os adultos. Proteger a criança é preservar sua rotina, garantir vínculos saudáveis, evitar exposição a acusações e discussões e oferecer a ela um ambiente em que possa continuar sendo criança. Mesmo quando há litígio, os adultos precisam compreender que o conflito conjugal não pode se sobrepor à função parental.
Em processos judiciais envolvendo menores, fala-se muito na importância da escuta da criança. O que significa, na prática, escutar uma criança em situação de vulnerabilidade?
Escutar uma criança em situação de vulnerabilidade significa acolhê-la de forma ética, cuidadosa e tecnicamente responsável. Não se trata apenas de fazer perguntas, mas de criar um ambiente em que ela possa se expressar sem pressão, sem medo e sem ser levada a responder aquilo que os adultos desejam ouvir. A escuta qualificada respeita o tempo psíquico da criança, sua linguagem, seus limites e sua condição de desenvolvimento. É uma escuta que busca compreender, e não induzir.
Quando crianças ou adolescentes são ouvidos em contextos judiciais, quais cuidados psicológicos são essenciais?
É essencial evitar a revitimização, preservar a dignidade da criança, respeitar sua capacidade emocional e impedir qualquer forma de sugestão ou pressão. Também é importante considerar que a fala da criança precisa ser compreendida dentro de seu contexto afetivo, relacional e desenvolvimental. Nem sempre a criança fala de modo linear ou objetivo como um adulto; muitas vezes, ela comunica sofrimento por meio do silêncio, de mudanças de comportamento, de contradições ou de afetos. Por isso, essa escuta exige preparo técnico, sensibilidade e responsabilidade.
Na sua experiência, quais são os maiores desafios na escuta de crianças em situação de vulnerabilidade?
Um dos maiores desafios é justamente não reduzir a criança a um relato isolado. É preciso escutar não só o que ela diz, mas também o contexto em que ela está inserida, os vínculos que a atravessam e as pressões, explícitas ou sutis, que podem influenciar sua fala. Outro grande desafio é proteger essa criança de interpretações apressadas ou de disputas adultas que tentam capturar sua subjetividade. Escutar uma criança exige cuidado para não falar por ela, não forçar uma narrativa e não transformar sua dor em instrumento processual.
Que tipo de apoio psicológico é mais indicado para crianças envolvidas em conflitos familiares intensos?
O apoio psicológico deve oferecer um espaço seguro de expressão, elaboração emocional e fortalecimento psíquico. Em muitos casos, a psicoterapia é indicada justamente para ajudar a criança a simbolizar o que está vivendo, reduzir a sobrecarga emocional e reconstruir um sentimento de segurança interna. Dependendo da situação, também pode ser necessário orientar os responsáveis sobre os efeitos do conflito na saúde mental infantil, porque cuidar da criança também envolve cuidar do ambiente em que ela está inserida.
Que conselho a senhora daria para famílias que estão passando por disputas judiciais envolvendo filhos?
Meu principal conselho é que os adultos tentem se lembrar, o tempo todo, de que a criança não deve carregar o peso do conflito que pertence ao casal parental. A separação pode ter ocorrido entre os adultos, mas a função de proteger emocionalmente os filhos precisa permanecer. Sempre que possível, é importante buscar diálogo, mediação, orientação profissional e formas mais responsáveis de conduzir o conflito. Nenhuma disputa vale o adoecimento emocional de uma criança.
A senhora faz atendimento presencial e online?
Sim. Realizo atendimentos tanto presenciais quanto online, sempre com o mesmo compromisso ético, técnico e cuidadoso com cada caso.
O leitor do site Bastidores da TV pode agendar uma consulta com a psicanalista através de qual meio de contato?
Sim. O agendamento pode ser feito por meio das minhas redes sociais @liaratheodoro_psi e canais de contato profissional – Whatsapp (62) 99814-0963, onde compartilho informações sobre atendimentos, projetos e formas de acompanhamento.
