Opinião: SBT insiste no jornalismo e se distancia cada vez mais do telespectador
Há cerca de três anos, o SBT parece travar uma batalha contra o próprio público. Desde a morte de Silvio Santos (1930 – 2024) e a ascensão da nova gestão comandada por Daniela Beyruti, a emissora adotou uma estratégia que, na prática, vem produzindo sempre o mesmo resultado: mais jornalismo, menos audiência e menos faturamento.
O problema não está no jornalismo em si. Toda grande emissora precisa ter um departamento jornalístico forte. O erro está em transformar uma emissora historicamente reconhecida pelo entretenimento em um canal que dedica cerca de 13 horas diárias à programação jornalística, ignorando completamente o comportamento do seu telespectador.
O público do SBT nunca escolheu a emissora para assistir telejornais. Historicamente, a identidade do canal sempre esteve ligada às novelas mexicanas, programas de auditório, humor, infantis, séries e filmes. Foi justamente essa estratégia de contraprogramação que permitiu ao SBT construir uma audiência fiel durante décadas.
Mesmo Silvio Santos, reconhecido por sua capacidade única de entender o gosto popular, tentou diversas vezes fortalecer o jornalismo da emissora. Todas as experiências fracassaram. Programas como Boletim de Ocorrência, Notícias da Manhã, Aqui Agora e SBT Notícias jamais conseguiram se consolidar e acabaram cancelados rapidamente diante dos baixos índices de audiência. O próprio fundador entendia que insistir em um produto rejeitado pelo público significava desperdiçar tempo e dinheiro.
A atual gestão, entretanto, parece acreditar que basta trocar o nome do programa, mudar o apresentador ou alterar o horário para que o telespectador passe a consumir um produto que rejeita há décadas.
Os exemplos recentes são numerosos. O Tá na Hora sofreu sucessivas mudanças de horário, formato e apresentadores antes de sair do ar. Em seguida veio o Aqui Agora, que repetiu exatamente o mesmo roteiro: alterações constantes, três apresentadores diferentes e cancelamento por baixa audiência e pouca procura comercial.
O Chega Mais, criado para renovar as manhãs da emissora, durou apenas nove meses. Mesmo recebendo uma audiência próxima dos quatro pontos, frequentemente entregava apenas um ponto ao programa seguinte, perdendo espaço para a Band. Já o Alô Você, comandado por Luiz Bacci — um dos nomes mais conhecidos do jornalismo policial — também não conseguiu ultrapassar a barreira dos dois pontos de audiência.
Nem mesmo profissionais de enorme credibilidade, como José Luiz Datena, Geraldo Luís, Luiz Bacci e outros jornalistas contratados recentemente conseguiram alterar esse cenário. Em diferentes horários, todos permaneceram praticamente na mesma faixa de audiência, entre dois e três pontos, muitas vezes atrás da Band.
A situação também se repete nas manhãs. O SBT Manhã deu lugar ao Se Liga Brasil, apresentado por Thiago Gardinali, mas os índices permaneceram exatamente iguais. Poucos meses depois, Gardinali foi desligado e Darlisson Dutra retorna ao horário, demonstrando mais uma vez que o problema nunca esteve no apresentador.
A próxima aposta será Rodrigo Bocardi, que estreia um novo jornalístico na faixa das 18h15. Trata-se de um jornalista respeitado e com longa trajetória na Globo. Mas a pergunta inevitável é: será que o problema realmente está no jornalista?
Tudo indica que não.
Essa será aproximadamente a 15ª tentativa do SBT de consolidar um telejornal nesse horário nos últimos anos. Os profissionais mudam. O nome do programa muda. A identidade visual muda. Mas a audiência continua exatamente igual.
Outro episódio que evidencia a falta de rumo da emissora envolve Murilo Fraga, um dos executivos mais experientes da televisão brasileira. Responsável pela programação do SBT durante cerca de duas décadas, ele foi demitido em setembro de 2024 por não concordar com os novos rumos adotados pela emissora e com decisões consideradas precipitadas pela atual gestão de Daniela Beyruti.
Menos de dois anos depois, diante da sequência de fracassos na audiência, Murilo foi chamado de volta, em abril de 2026, para tentar reorganizar a programação e recuperar o desempenho da emissora. A recontratação foi interpretada nos bastidores como um reconhecimento de que as mudanças promovidas até então não haviam produzido os resultados esperados.
Entretanto, quatro meses após seu retorno, pouco mudou. A única alteração de maior impacto foi a inclusão de uma hora do seriado Chaves na faixa das 13h às 14h, reduzindo em apenas uma hora o espaço destinado ao jornalismo. No restante da grade, a estratégia permaneceu praticamente intacta e a maioria dos programas continua registrando audiência na casa dos dois pontos.
Enquanto isso, a emissora abandonou justamente aquilo que sempre funcionou como diferencial competitivo: novelas mexicanas, séries clássicas, filmes internacionais e atrações de entretenimento que historicamente enfrentavam os telejornais policiais da Record e da Band oferecendo uma alternativa ao público.
A mudança atingiu até os sábados. Até 2023, a programação era praticamente toda voltada ao entretenimento familiar. Hoje, cerca de oito horas são ocupadas por jornalismo, reduzindo espaço de atrações tradicionais como o Sábado Animado e eliminando séries exibidas no horário do almoço.
Nas redes sociais, as reclamações tornaram-se frequentes. Muitos telespectadores afirmam que o SBT deixou de ser o canal leve e familiar que acompanhavam durante décadas para se tornar uma emissora excessivamente policial e repetitiva.
Outro fator que chama atenção é o elevado custo dessa estratégia. Enquanto reprises de novelas mexicanas, séries e filmes possuem custos significativamente menores e já demonstraram bom desempenho ao longo dos anos, a emissora insiste em investir em programas jornalísticos caros que, muitas vezes, passam horas reprisando as mesmas reportagens ao longo do dia sem conseguir atrair audiência ou anunciantes.
Talvez o aspecto mais preocupante seja a aparente dificuldade da direção em interpretar os próprios números. Há quase três anos, a emissora promove mudanças a cada trimestre, cancela programas, troca apresentadores, reformula cenários e cria novas marcas. Entretanto, os resultados permanecem rigorosamente os mesmos.
Insistir no mesmo modelo esperando um resultado diferente dificilmente parece uma estratégia empresarial consistente.
As decisões recentes da gestão de Daniela Beyruti também têm sido alvo de críticas dentro e fora da emissora. Diversos projetos lançados entre 2024 e 2025 acabaram cancelados por baixa audiência e dificuldade de comercialização. Até integrantes da própria família Abravanel já manifestaram divergências sobre os rumos da programação.
Silvio Santos construiu o SBT entendendo algo fundamental: televisão não é feita para agradar executivos, mas sim o telespectador. Quando um programa não funcionava, ele tirava do ar rapidamente e buscava outro caminho.
Hoje, a impressão é exatamente a contrária. O SBT parece esperar que, em algum momento, o telespectador mude seus hábitos para se adaptar à programação da emissora.
A história da televisão brasileira mostra que isso raramente acontece.
Talvez ainda haja tempo para recuperar a identidade que transformou o SBT em uma das emissoras mais queridas do país. Mas, para isso, será necessário aceitar uma verdade simples: mudar o nome do telejornal não muda o gosto do público. Tampouco contratar novos apresentadores resolverá um problema que parece estar na estratégia adotada. Enquanto a direção insistir em oferecer ao telespectador um produto que ele demonstra rejeitar há anos, a audiência dificilmente voltará a crescer.
