SBT tenta reprisar a novela “Xica da Silva”, mas não consegue negociar direitos de exibição
O SBT tentou, mas não conseguiu viabilizar a aquisição dos direitos de exibição de Xica da Silva (1996), um dos maiores sucessos da extinta Rede Manchete (1983-1999). A novela, que projetou Taís Araujo ao estrelato, permanece em uma espécie de limbo jurídico e comercial, dificultando sua disponibilização em plataformas de streaming e eventuais reprises na televisão brasileira.
O principal objetivo da emissora de Silvio Santos era incluir a produção em seu catálogo digital, o +SBT. A possibilidade de promover uma nova reprise na programação da TV aberta também chegou a ser cogitada. Entretanto, a negociação esbarrou em uma série de obstáculos envolvendo a titularidade dos direitos da obra e a identificação dos responsáveis legais por sua exploração comercial.
Impasse jurídico dificulta negociação com o SBT
Um dos principais entraves está relacionado à situação jurídica da novela. Representantes da família de Adolpho Bloch (1908-1995), fundador da Manchete, afirmam não ser os proprietários legais da produção.
Os direitos de exibição de Xica da Silva estariam vinculados à Bloch Som e Imagem, empresa criada em 1995 pela própria Manchete em meio às dificuldades financeiras enfrentadas pelo grupo. A produtora teria sido estruturada para proteger determinados produtos de possíveis penhoras naquele período.
A empresa era comandada por Pedro Jack Kapeller, sobrinho de Adolpho Bloch, que assumiu o controle da Manchete após a morte do fundador. Foi com ele que o SBT negociou a exibição da novela em 2005, quando a emissora paulista levou novamente a trama ao ar.
Após a morte de Kapeller, em 2022, suas filhas, Carla e Daniella Kapeller, passaram a administrar os negócios. Ainda assim, a existência de outros envolvidos na exploração comercial da produção torna o cenário mais complexo.
Licenciamento internacional aumenta a complexidade
Outro fator que dificulta a situação é a existência de uma licença concedida à produtora Vip2000, responsável pela comercialização internacional de Xica da Silva.
A novela conquistou espaço em mercados estrangeiros, incluindo países da América Central e da Europa. Ao longo dos anos, porém, atores do elenco chegaram a reclamar publicamente de não terem recebido valores referentes às exibições internacionais da produção.
A presença de diferentes empresas e interesses comerciais envolvidos na exploração da obra torna mais difícil determinar quais autorizações seriam necessárias para uma nova exibição no Brasil.
Vencedores de leilões também entram na equação
Além das questões relacionadas à Bloch Som e Imagem e à Vip2000, o SBT teria de lidar com outro obstáculo: os direitos e ativos relacionados à massa falida da antiga Rede Manchete.
A emissora precisaria identificar os vencedores dos leilões envolvendo bens da empresa, mas não haveria clareza sobre quem seriam essas pessoas e quais direitos efetivamente teriam adquirido.
A situação também envolve os direitos autorais do texto. A novela foi escrita por Walcyr Carrasco, que utilizou o pseudônimo Adamo Angel na produção. Atualmente, um dos principais autores da TV Globo, ele próprio não soube esclarecer se precisaria autorizar uma eventual nova exibição da trama.
Procurado pela coluna responsável pela informação, Carrasco respondeu: “Sinto muito, não tenho a informação exata”.
Globo também tentou recuperar novelas da Manchete
O problema envolvendo o acervo da antiga emissora não é recente. Em 2021, a Globo demonstrou interesse em disponibilizar novelas clássicas da Manchete no Globoplay, sua plataforma de streaming.
Na ocasião, pessoas familiarizadas com o assunto teriam informado à empresa que o arquivo da antiga rede, incluindo suas últimas produções, não havia sido preservado com os cuidados necessários para permitir uma recuperação profissional.
A questão evidencia que o resgate de obras históricas da televisão brasileira depende não apenas do interesse comercial das emissoras, mas também da preservação dos materiais originais e da resolução de eventuais pendências jurídicas.
Novela marcou a história da televisão brasileira
Adaptada livremente dos romances Chica que Manda, de Agripa Vasconcellos, e Xica da Silva, de João Felício dos Santos, a produção estreou em 1996 e se tornou um dos últimos grandes sucessos da Rede Manchete antes do encerramento das atividades da emissora, em 1999.
A trama teve Taís Araujo como protagonista. Na época, a atriz tinha apenas 17 anos e encontrou no papel de Xica da Silva uma oportunidade decisiva para sua trajetória artística.
O elenco também reuniu nomes que posteriormente conquistariam grande destaque na televisão, como Giovanna Antonelli, Drica Moraes, Murilo Rosa, Dalton Vigh, Victor Wagner, Carla Cabral, Zezé Motta, Adriane Galisteu e Guilherme Piva.
Audiência expressiva na Manchete e no SBT
Na exibição original, Xica da Silva chegou a registrar médias de 14 pontos de audiência na Grande São Paulo, desempenho expressivo para a Manchete e comparável aos resultados alcançados anteriormente por sucessos como Pantanal (1990) e Ana Raio e Zé Trovão (1991).
Anos depois, a novela voltou à televisão brasileira por meio do SBT. Em 2005, a reprise alcançou picos de 20 pontos de audiência, demonstrando a força da produção junto ao público.
Mesmo com o histórico de sucesso e o potencial de atrair diferentes gerações de espectadores, a novela continua enfrentando dificuldades para retornar oficialmente ao catálogo de uma emissora brasileira ou de uma plataforma de streaming.
Enquanto as pendências envolvendo os direitos da obra não forem esclarecidas, a possibilidade de rever Xica da Silva em uma nova reprise ou em serviços digitais permanece condicionada à resolução desses entraves.
Relembre a novela:
