Roberto Cabrini revive relatos do jornalismo de guerra

Roberto Cabrini revive relatos do jornalismo de guerra

Atenção: esta entrevista também está no Instagram @vi_textos, em formato de fotorreportagem.

Roberto Cabrini, apresentador do Domingo Espetacular, da Record, revisita episódios marcantes de sua trajetória no jornalismo de guerra. Após cobrir cerca de 14 conflitos internacionais, o correspondente relata situações extremas vividas no Afeganistão e no Iraque. Além disso, reflete sobre o medo, a violência, os interesses políticos e o papel da imprensa em meio à devastação.


O episódio com o Talibã no Afeganistão

Em 1996, durante a ascensão do Talibã no Afeganistão, Cabrini viveu um dos momentos mais perigosos de sua carreira. Na ocasião, ao lado do cinegrafista Sherman Costa, ele avançou por uma linha de combate no deserto afegão. Nesse cenário, a equipe encontrou uma vila persa sendo destruída após moradores oferecerem comida a opositores do regime talibã.

Ainda assim, mesmo diante do risco de serem atingidos em meio à ofensiva do Talibã, a dupla decidiu registrar o ataque por entender que aquelas imagens poderiam servir como evidências de violações de direitos humanos.

No entanto, quando começaram a deixar o local, os jornalistas foram encurralados por cerca de dez combatentes armados com fuzis Kalashnikov. Naquele instante, o grupo deu a entender que eles poderiam ser executados ali mesmo. Cabrini tentou manter a calma e estabelecer contato, recorrendo a meia dúzia de palavras em pashto que havia aprendido dias antes.

Correndo risco de vida no Talibã. Foto Divulgação/SBT.


O encontro com os combatentes

Logo em seguida, a tensão começou a diminuir quando um dos guerrilheiros demonstrou interesse pelo relato, pediu que os demais abaixassem as armas e acionou um superior pelo rádio. Pouco depois, o comandante chegou acompanhado de outros integrantes do grupo. Diferentemente dos demais, ele tinha conhecimento intermediário de inglês e, por isso, questionou a presença da equipe naquela zona de guerra.

Naquele momento, na tentativa de reduzir a tensão, Cabrini explicou que ele e o cinegrafista não eram americanos, como os combatentes suspeitavam. Logo depois, afirmou que haviam seguido aquele caminho entre Cabul e Bagram por engano e que estavam ali para retratar ao público brasileiro a cultura islâmica sem os preconceitos frequentemente associados ao Ocidente.

Como resultado, o clima hostil deu lugar a uma confraternização amistosa. Após a conversa, a equipe conquistou a simpatia dos homens armados. Posteriormente, ao fim do dia, todos compartilharam uma refeição improvisada de chá, pão, grãos e kebab, no deserto afegão.

“Entre sorrisos, veio a lembrança de que, horas antes, tínhamos um punhado de Kalashnikovs apontados contra nós, com dedos prontos para apertar o gatilho em nome de Alá”, recorda.


O peso das coberturas em zonas de guerra

Sem dúvida, cobrir conflitos armados está entre as tarefas mais desafiadoras do jornalismo, uma vez que esses cenários são marcados por destruição, medo e morte. Ainda assim, ao atuar nesses ambientes, Cabrini procura manter o foco na missão que tem a cumprir.

Dessa maneira, ele entende que seus relatos podem se transformar em denúncias de atrocidades e violações de direitos humanos. Por outro lado, destaca que, enquanto circula temporariamente por esses ambientes, há populações inteiras submetidas de forma contínua à violência, portanto o apresentador não se permite recuar diante dos obstáculos que encontra ao relatar os fatos.

“Com o passar do tempo, você evolui e aprende cada vez mais a controlar a própria mente. Cheguei a um ponto em que considero o medo meu grande amigo, desde que ele não me paralise e me mostre os limites físicos, psicológicos e logísticos de cada situação”, analisa.

Conversando com o povo afegão. Foto Divulgação/Record.


A relação com o medo

Ao longo de coberturas internacionais, o jornalista afirma que seu maior temor é perder a capacidade de agir com racionalidade, algo que, em situações extremas, pode ser decisivo para a sobrevivência. Segundo Cabrini, essa percepção integra um processo contínuo de autoconhecimento.

Além disso, o apresentador ressalta que o medo não o paralisa. Pelo contrário, em cenários de risco, a adrenalina o leva a um estado de lucidez descrito por ele como extraordinário e surpreendente.

“Ninguém é o Super-Homem, mas constantemente cabe a mim a tarefa de tentar acalmar meus companheiros. Isso é algo que só se descobre longe do ambiente controlado das redações”, enfatiza.

Nesse contexto, ele acrescenta que registrar as cenas por meio da câmera ou de anotações ajuda a amortecer o impacto imediato da violência presenciada fora do registro audiovisual. Dessa forma, o compromisso de informar funciona como uma blindagem emocional diante das atrocidades. Ainda assim, ele admite:

“Muitas vezes, você só desaba e até vai às lágrimas dias depois de a cobertura terminar”, desabafa.


As marcas deixadas pelos conflitos

Depois de inúmeras experiências em zonas de guerra, Cabrini destaca que passou a enxergar o mundo sob outra perspectiva. As coberturas impactaram profundamente sua visão da realidade e, consequentemente, abalaram sua esperança de que princípios como respeito, solidariedade e diversidade prevaleçam sobre interesses econômicos e militares.

Ao mesmo tempo, essas vivências reforçaram a convicção de que a imprensa livre é essencial para a construção de uma sociedade mais consciente. Nesse contexto, a liberdade de imprensa surge como elemento central na formação de um olhar crítico sobre o mundo. Ademais, o jornalista defende que o repórter não deve tentar moldar a opinião do público.

Desse modo, cabe aos veículos de comunicação oferecer informação de qualidade, permitindo que cada pessoa forme suas próprias conclusões, mesmo que estas sejam diferentes da visão de quem relata os fatos.

“Só assim, em um mundo tão polarizado, nossa atividade merecerá ser chamada de jornalismo”, reflete.


A cobertura em Halabja

Entre as experiências mais desafiadoras da carreira de Cabrini está a cobertura de Halabja, cidade curda no norte do Iraque, atacada com armas químicas pelo exército de Saddam Hussein em 1988.

Diante desse cenário, o correspondente internacional relembra que entrou clandestinamente na cidade em 1995, driblando as forças do ditador que ainda controlavam o país.

O cenário era de devastação. O bombardeio químico, considerado um dos mais brutais contra civis no Oriente Médio, provocou milhares de mortes e deixou sequelas profundas na população curda.

“O ataque, oficialmente definido como um ato de genocídio contra o povo curdo, me mostrou até onde podem chegar as atrocidades cometidas em nome do poder”, lamenta.


O papel do jornalismo em tempos de guerra

Atualmente, com décadas de carreira e consolidado como um dos nomes mais reconhecidos da comunicação brasileira, Cabrini afirma que continua motivado a contar histórias. Para ele, o jornalismo é uma das ferramentas mais importantes no enfrentamento das injustiças e das violações de direitos ao redor do mundo.

Somado a isso, chama atenção para o fato de que cerca de 100 conflitos armados ocorrem, neste momento, em aproximadamente 50 países, muitas vezes sem grande repercussão internacional. Diante desse cenário, ressalta que o mundo não vivia um período de tamanha instabilidade desde a Segunda Guerra Mundial e, por isso, reforça a urgência da atuação jornalística:

“Não podemos nos calar. É nosso dever”, finaliza.


No Afeganistão, em 1996

 

O ataque químico no Iraque, em 1995


Trajetória profissional de Roberto Cabrini

Roberto Cabrini iniciou a carreira no jornalismo aos 16 anos, em rádio e jornal de Piracicaba, no interior de São Paulo. Aos 17, foi contratado pela TV Globo e se tornou o repórter mais jovem da história do telejornalismo de rede da emissora. Entre 1982 e 1984, atuou no Globo Esporte. Depois, apresentou o Esporte Total, da Rede Bandeirantes, entre 1984 e 1989.

Na Globo, também trabalhou como correspondente internacional em Nova Iorque e Londres. E, ao longo da carreira, destacou-se por reportagens investigativas e coberturas de guerras em países como Afeganistão, Iraque e Ucrânia.

Em 2009, retornou ao SBT para criar e apresentar o Conexão Repórter, programa de reportagens investigativas que comandou até 2020. Nesse período, conquistou importantes prêmios do jornalismo brasileiro.

O jornalista assumiu oficialmente a apresentação do Domingo Espetacular em 19 de janeiro de 2025. No entanto, antes disso, ele já participava do programa desde 2020, realizando reportagens especiais e investigativas.

Ao longo da carreira, Roberto Cabrini realizou coberturas em algumas das principais zonas de conflito do mundo. Entre elas, destacam-se duas passagens pelo Iraque, três pelo Afeganistão e quatro por Israel, além de reportagens na Faixa de Gaza, na Caxemira, na Somália, no Haiti e na Ucrânia.

Trabalhos favoritos

Durante sua passagem pelo SBT, o apresentador produziu duas reportagens para o Conexão Repórter que ele considera as mais especiais de sua carreira, sobretudo por terem ajudado a inocentar brasileiros presos injustamente, em casos marcados por racismo estrutural.

Nesse contexto, as reportagens “Cárcere sob suspeita” e “Entre a Lei e a Cor da Pele” comprovaram a inocência de uma mulher e de um homem, respectivamente. Ainda que não tenham recebido prêmios, ambas são lembradas por Cabrini como trabalhos marcantes, pois tiveram forte impacto jornalístico e social ao expor injustiças e contribuir para fazer justiça.

Roberto Cabrini. Foto: Divulgação Record

Apurações inesquecíveis na carreira de Roberto Cabrini:

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