Sonia Abrão fala sobre jornalismo e decisões
Atenção: esta entrevista também está no Instagram @vi_textos, em formato de fotorreportagem.
O programa A Tarde é Sua, da RedeTV!, completou 20 anos no ar neste mês, sob o comando de Sonia Abrão. Para marcar a data, a apresentadora relembra uma discussão marcante de sua trajetória no jornalismo. Ela também analisa os bastidores do universo das celebridades e compartilha reflexões sobre ética profissional e os limites da exposição pública. Por fim, abre o coração ao contar uma história pessoal.
Os dois lados
Falar sobre famosos não é uma tarefa simples. Isso porque o jornalista não lida apenas com figuras influentes e poderosas, mas também com a forte reação de fãs. Por esse motivo, em alguns casos, determinadas notícias geram ataques e críticas intensas nas redes sociais.
Além do mais, há casos em que o próprio comunicador admira a personalidade sobre a qual está falando, o que pode tornar mais delicada a divulgação de certas informações. Assim, para evitar que isso interfira no trabalho, Sonia Abrão defende uma regra básica do jornalismo: ouvir e apresentar os dois lados da história.
Escolhas da profissão
Ao longo da carreira, a apresentadora afirma que nunca sofreu pressão para deixar de divulgar uma informação. Por outro lado, ela já recebeu pedidos para não levar determinadas histórias ao ar. Nessas situações, portanto, o jornalista precisa analisar cada caso com cautela antes de tomar uma decisão.
“Fiz escolhas: ser melhor como ser humano do que como jornalista. Sei de muita coisa que nunca publiquei. E não me arrependo”, reflete.
Briga marcante
Entre os episódios mais inesquecíveis de sua trajetória, Sonia Abrão relembra uma discussão com Clodovil Hernandes. Segundo a apresentadora, o estilista, então seu colega na RedeTV!, não reagiu bem a uma nota de audiência. O texto informava que ele perdia no Ibope para o desenho Popeye, exibido pela Rede Globo na época.
De acordo com a jornalista, Clodovil tinha uma personalidade passional e, por isso, ligou para reclamar da publicação. Ele afirmou que ela não era “brasileira”, já que teria valorizado uma atração americana em vez de um artista nacional.
“Ele bateu o telefone na minha cara. Como esse mundo dá muitas voltas, acabamos ficando amigos, mas nunca deixamos de brigar. Acontece”, recorda.
Momento de perdão
Mesmo após os desentendimentos, Clodovil enviou um bolo e um cartão carinhoso quando Sonia Abrão estreou no programa Falando Francamente, no SBT. Assim, o gesto surpreendeu a comunicadora na época.
A última entrevista entre os dois aconteceu no fim de 2006, na casa do estilista em São Paulo, após sua eleição como deputado federal. Posteriormente, três anos depois, Clodovil morreu. Já neste ano, ao falar com jornalistas do canal NaTelinha Talk, no YouTube, Sonia Abrão demonstrou alívio ao lembrar que o último contato entre eles marcou uma reconciliação.
Reflexões
Com a maturidade construída ao longo da vida pessoal e profissional, a comunicadora reconhece um erro importante. Ela percebe que colocou a carreira acima dos momentos com as pessoas que ama.
Nesse período, Sonia Abrão acumulou trabalhos simultâneos em jornal, revista, rádio e televisão. Assim, manteve uma rotina intensa e, consequentemente, com pouco tempo para a vida pessoal.
A reflexão surgiu após ouvir a canção “Epitáfio”, da banda Titãs. Os versos “devia ter complicado menos, trabalhado menos, ter visto o sol se pôr” provocaram um choque de realidade. Dessa forma, ela passou a repensar o ritmo de vida.
“Então, virei a mesa. Optei só pelo programa de TV e passei a ver o pôr do sol com meu filho”, celebra.
Principal decepção
Embora goste do jornalismo de celebridades, Sonia Abrão afirma que sua maior decepção nesse meio foi perceber que se trata de um mundo pautado pela vaidade. Além disso, ela critica a valorização excessiva da aparência em detrimento do conteúdo.
Segundo a apresentadora, muitos artistas se colocam em um pedestal; no entanto, acabam sendo usados e descartados de forma cruel.
“Aprendi a trabalhar nesse meio sem fazer parte da engrenagem”, destaca.
Limites da carreira
Atualmente, com uma carreira consolidada na comunicação, Sonia Abrão considera fundamental que o jornalista saiba filtrar quais informações devem ser levadas ao público.
“Muitas verdades não vão acrescentar nada à sociedade. Pelo contrário, apenas prejudicam os envolvidos. Então, por que divulgar? Essa questão se define pelo respeito ao ser humano”, reflete.
A trajetória de Sonia Abrão no jornalismo é marcada por histórias intensas e decisões difíceis. Tais aprendizados serviram para que ela se tornasse uma profissional mais consciente e, ao mesmo tempo, disposta a valorizar boas memórias com as pessoas que lhe fazem bem, quando não está no ar.
A Tarde é Sua completa 20 anos no ar
Última entrevista com Clodovil
Trajetória profissional de Sonia Abrão
A jornalista Sonia Abrão construiu uma carreira marcada pela atuação em diferentes frentes da comunicação, incluindo rádio, televisão, imprensa escrita e literatura.
Formada em jornalismo, iniciou sua trajetória profissional no jornal Notícias Populares. Em seguida, trabalhou em revistas de circulação nacional, como Contigo! e Amiga, exercendo funções de colunista, repórter, redatora e chefe de reportagem.
Consolidou-se como crítica de televisão e rádio ao assinar, durante dez anos, uma coluna diária nos jornais Diário Popular e Diário de São Paulo, período em que se destacou pelo estilo direto e por análises de forte posicionamento editorial.
Na televisão, ganhou projeção no SBT, com reportagens para programas de Gugu Liberato, além de participações no programa Aqui Agora e atuação como jurada em atrações de Silvio Santos. Entre 2002 e 2004, apresentou o programa Falando Francamente, no SBT. Posteriormente, comandou o Sonia na TV, na Record TV.
Desde 2006, apresenta o programa A Tarde é Sua, na RedeTV!, voltado ao entretenimento, entrevistas e cobertura do universo das celebridades.
No rádio, atuou em emissoras como Tupi, Globo, América, Capital e Record, sendo reconhecida como uma das primeiras mulheres a comandar programas em faixas tradicionalmente masculinas.
Como escritora, lançou cinco livros: Santas Receitas (em parceria com a irmã Margareth Abrão), Abaixo a Mulher Capacho, Homens que Somem, As Pedras do Meu Caminho (em coautoria com Rafael Ilha) e o livro de poemas Aos Homens que Amei.

