Lacerda e o Inter: entre a paixão do torcedor e o foco no jornalismo

Lacerda e o Inter: entre a paixão do torcedor e o foco no jornalismo
 

A paixão pelo Internacional nunca saiu do coração de Carlos Lacerda, mesmo após ele trocar a euforia das arquibancadas pela responsabilidade da cabine de imprensa. Setorista dedicado à cobertura do Colorado, o gaúcho relembra os bastidores de sua trajetória profissional, marcada pelo desafio de equilibrar o amor pelo clube com a busca pela imparcialidade. Além disso, comenta a convivência intensa com uma torcida tão apaixonada quanto exigente, especialmente nas redes sociais.

Relação com o Inter antes e depois de ser imprensa

Após se tornar uma figura conhecida no ambiente do Internacional, Lacerda passou por uma transformação significativa na forma de se relacionar com o clube. Antes do reconhecimento público, seu olhar era o de um torcedor apaixonado, que evitava criticar o time do coração. No entanto, depois de ingressar na imprensa, o tom mudou; atualmente, ele se considera mais analítico e exigente.

Com a proximidade profissional, a responsabilidade em relação à informação aumentou. Ao mesmo tempo, o olhar jornalístico substituiu a visão puramente emocional. Assim, a paixão passou a caminhar ao lado do senso crítico e do compromisso com a apuração. Consequentemente, ele passou a enxergar o clube de maneira mais racional.

“A forma de mostrar o quanto colorado a gente é é criticando”, compartilha o aprendizado.

Lidando com críticas, elogios e cobranças dos torcedores

Lacerda encara as redes sociais com leveza. Quando chega em casa, costuma dedicar um tempo para responder ao público. Segundo o jornalista, ele aprendeu a filtrar as interações: elogios não lhe sobem à cabeça, enquanto críticas não o abalam.

Enquanto falas ofensivas e ataques pessoais recebem bloqueio, cobranças profissionais, ainda que duras, passam por análise. Conforme explica, ele considera comentários construtivos. Em contrapartida, ignora mensagens destrutivas, embora também não bloqueie seus autores.

No Rio Grande do Sul, a rivalidade entre Inter e Grêmio costuma gerar reações intensas, especialmente para quem trabalha diariamente em meio às paixões do futebol local. Nesse cenário, Lacerda afirma que, independentemente do clube para o qual alguém torça, o lado oposto tende a reagir com xingamentos. Para ele, isso é algo natural tanto no ambiente esportivo quanto no jornalístico.

Ao relembrar um dos momentos mais difíceis de sua trajetória, durante o rebaixamento do Internacional para a Série B do Campeonato Brasileiro, o jornalista conta que passou a receber mensagens inusitadas de torcedores colorados na internet.

“Quando o Inter caiu para a segunda divisão, os torcedores pediam ‘200 coisas’ que a gente não tinha como fazer: botar fogo, protestar… e isso não é o nosso papel como imprensa”, recorda.

Sendo fiel às convicções

O comunicador, que já vivenciou tanto a final da Libertadores quanto o traumático descenso do Inter no Brasileirão, destaca a importância de manter o equilíbrio emocional no dia a dia. Dessa forma, a paixão dos torcedores não interfere em seu trabalho.

“Nosso papel é informar o que acontece no dia a dia do clube. Aí, a torcida, dentro da normalidade da lei, resolve fazer o que quiser”, analisa.

Além disso, Lacerda considera o tempo e a experiência fundamentais para que um profissional se mantenha equilibrado e desempenhe bem sua função. Segundo ele, maturidade e racionalidade fazem diferença nos momentos mais delicados da carreira. Por isso, acredita que agir com calma é indispensável para tomar decisões mais conscientes.

Jogo mais difícil cobrindo o Inter

Em 18 de setembro de 2019, o Athletico-PR conquistou seu primeiro título da Copa do Brasil, em uma noite histórica e dolorosa para os torcedores do Internacional, em pleno Beira-Rio. Na época, o setorista colorado trabalhava para a Rádio GreNal. Para ele, aquele vice-campeonato não representou apenas uma derrota esportiva, mas também um marco negativo em sua carreira. Como consequência, uma colega de transmissão precisou falar em seu lugar durante parte da cobertura.

“Eu me lembro que o Haroldo me chamava durante a jornada e eu nem respondia mais, de tão triste que fiquei. Naquele momento, falou mais alto o meu lado torcedor. Eu estava incrédulo com o que via e muito abalado com a situação: milhares e milhares de pessoas no Beira-Rio, e o Inter não conseguia conquistar o título que todos acreditavam que viria”, recorda.

Família “Internacional”

O amor pelo Internacional é um legado que atravessa gerações na família Lacerda, do avô ao neto, da mãe à tia, todos unidos por camisas vermelhas que representam mais do que um time: uma identidade. Embora ser torcedor nunca tenha sido tarefa fácil, o apoio familiar tornou os dias difíceis mais leves e ajudou a transformar frustrações em força.

“Peguei os anos 90 do Inter, que eram terríveis. Ainda assim, parece que fiz desse limão uma limonada, porque fiquei ainda mais colorado. Depois, vieram os anos 2000, com meu time sendo o mais vitorioso do século, conquistando Libertadores, Mundial… Com isso, a nossa paixão pelo Internacional cresceu ainda mais”, declara o setorista.

Entre críticas, elogios e os altos e baixos do time que cobre e também torce, Lacerda mantém a serenidade necessária para informar com clareza, respeitando tanto o Inter quanto sua torcida. Desse modo, o equilíbrio reflete o trabalho de quem encara o futebol como um jornalista comprometido com a informação e com a responsabilidade profissional.

Sobre Carlos Lacerda

Com 15 anos de atuação no jornalismo, o comunicador trabalhou como produtor na Rádio Bandeirantes-RS e repórter no jornal O Sul. Em 2015, ingressou na Rádio GreNal como estagiário, passando posteriormente a repórter e apresentador, função que exerceu durante sete anos. Desde então, dedica-se a projetos na internet, atuando no YouTube e também em suas redes sociais.

 

No estádio Beira-Rio. Foto Divulgação: Fernando Alves.

 

Tá na Rede, programa da Rádio GreNal

 

Lacerda no De Carona com o Gamba, do YouTube

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